O psicólogo e autor português Eduardo Sá relata, num diário que será publicado a 21 de Setembro, as condições e experiências vividas nos últimos cinco anos após um acidente doméstico que o deixou em cadeira de rodas. Aos 64 anos, pai de seis filhos e autor de dezenas de obras, Sá descreve um percurso marcado pela reabilitação física mas também por obstáculos institucionais e sociais que expõem a exclusão das pessoas com deficiência em Portugal.
Da queda à reabilitação: diagnóstico e vivência
O acidente, descrito pelo autor como uma fractura da coluna resultante de um desmaio, obrigou-o a permanecer seis meses num hospital de reabilitação. No diário, cujo título é Um pássaro quando pousa nunca deixa de voar, Sá partilha não só a dimensão física da recuperação mas também o impacto emocional e a relação com os profissionais de saúde.
Entre as críticas mais contundentes que o autor levanta está a do que identifica como capacitismo — atitudes e práticas que desvalorizam e excluem as pessoas com deficiência — e a carência de cuidados de saúde mental integrados nos serviços de reabilitação. Sá sublinha que essa lacuna afeta a dignidade e a cidadania das pessoas que atravessam processos de doença grave ou incapacitante.
«Passei a ser o doente da cama dois»
Problemas na prática clínica: sobremedicação e desumanização
O autor denuncia, ainda, a existência de práticas de sobremedicação nos contextos de reabilitação, apontando para um modelo terapêutico que por vezes privilegia fármacos em detrimento do acompanhamento psicológico e da autonomia do doente. Acrescenta que, quando a doença ocorre, a pessoa deixa de ser tratada como cidadão pleno — uma observação que convida a uma reflexão sobre os direitos e o lugar social de quem vive com deficiência.
O diário surge, segundo o próprio, como uma tentativa de transformar o sofrimento vivido em utilidade pública. Em palavras que conjuguem resignação e esperança, Sá afirma:
«Acho que hoje sou uma pessoa melhor»
Reflexões sociais e educativas
Para além do relato pessoal sobre a reabilitação, o psicólogo mantém críticas de longo curso sobre parentalidade e sociedade. No texto que antecede o lançamento do livro, Sá aponta críticas aos chamados «pais 5G», criticando a excessiva protecção das crianças, a sobrecarga de actividades e o predomínio de tutoriais e aplicações na educação parental. Defende que as crianças têm cada vez menos tempo para brincar e mais para trabalhar.
Essas observações cruzam preocupações sobre a formação das novas gerações com a experiência de quem esteve dependente de cuidados: a dupla perspetiva — de profissional e de utente do sistema de saúde — reforça a urgência de repensar práticas clínicas e políticas públicas que garantam inclusão e dignidade.
Dados essenciais
| Elemento | Informação |
|---|---|
| Idade | 64 anos |
| Filhos | 6 |
| Tempo no hospital de reabilitação | 6 meses |
| Título do livro | Um pássaro quando pousa nunca deixa de voar |
| Data de publicação | 21 de Setembro |
Consequências e apelo público
As memórias agora reveladas trazem ao debate público questões que transcendem a experiência individual: a necessidade de integrar a saúde mental nos programas de reabilitação, a revisão de práticas clínicas que possam conduzir à sobremedicação e a promoção de políticas que combatam o capacitismo estrutural. Ao transformar a sua vivência num diário público, Sá pretende contribuir para a consciencialização e provocar mudanças nas práticas profissionais e na forma como a sociedade encara a deficiência.
O livro chega ao público como um testemunho pessoal e um chamado à responsabilidade colectiva: além de um relato de sofrimento e recuperação, é um convite a reconhecer a plena cidadania das pessoas com deficiência e a melhorar as respostas do sistema de saúde português.
- Testemunho pessoal que denuncia práticas de reabilitação e atitudes capacitistas;
- Apelo à integração de cuidados de saúde mental nos serviços de reabilitação;
- Reflexão sobre parentalidade e protecção excessiva das crianças.