Foi hoje formalmente apresentado em Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, o projeto «4 Patas no Combate à Solidão», uma iniciativa que pretende reduzir o abandono de animais e atenuar o isolamento social entre a população idosa dos Açores através de visitas regulares com cães provenientes do canil intermunicipal.
Como vai funcionar o piloto
O programa, que arranca como projeto-piloto com a duração prevista de um ano, foi celebrado no âmbito de um protocolo entre o Governo Regional (coligação PSD/CDS/PPM) e a associação Pata d'Açúcar. Está orçamentado em 21 mil euros e terá como primeira área de intervenção a ilha Terceira.
Na primeira fase, a associação planeia selecionar:
- 6 beneficiários (idosos que receberão as visitas);
- entre 12 e 18 voluntários jovens que serão formados para acompanhar e manejar os animais;
- animais treinados proveniente do canil intermunicipal da ilha Terceira.
Os voluntários receberão 25 horas de formação para aprender a lidar com os cães e a ensinar os idosos a fazê‑lo em segurança. Os treinadores da associação serão responsáveis pela seleção e pelo treino dos animais, de forma a garantir que o contacto com pessoas idosas decorre sem riscos.
Calendário e metas
Segundo a associação, as primeiras visitas aos idosos poderão ter início em janeiro, após o período de seleção e formação dos voluntários e do treino dos cães. A Pata d'Açúcar aponta também para a possibilidade de, no futuro, os idosos adotarem os animais caso existam condições para tal — transformando visitas regulares em lares definitivos para cães anteriormente abandonados.
«É uma ação com múltiplas vantagens: vantagens sociais e vantagens também no âmbito do bem‑estar emocional das pessoas, no combate à solidão e no combate ao abandono de animais», afirmou o secretário regional da Agricultura e Alimentação, António Ventura.
Experiência e segurança
A vice‑presidente da Pata d'Açúcar, Antónia Saraiva, sublinhou que a associação já tem projetos em curso na Terceira, nomeadamente com cães treinados para detetar hipoglicemias em pessoas com diabetes, e que essa experiência sustenta a escolha das metodologias para o novo programa.
«Temos uma vasta experiência de 10 anos com a escolha dos animais e até hoje não houve problema nenhum», afirmou Antónia Saraiva.
Os cães serão submetidos a testes pelos treinadores antes de integrarem o programa e todo o processo será acompanhado para garantir a segurança dos beneficiários e dos voluntários.
Impacto local e particularidades insulares
Nos Açores, a insularidade agrava dinâmicas de envelhecimento e isolamentos sociais, com comunidades dispersas e acesso limitado a alguns serviços de proximidade. Programas que combinam apoio social com soluções para o abandono animal ganham particular relevância num arquipélago onde o transporte de animais entre ilhas e a disponibilidade de lares podem ser desafios adicionais.
Para além do efeito direto no bem‑estar emocional dos idosos, o projeto pretende também sensibilizar para a adoção responsável e reduzir pressão sobre os canis locais. Ao envolver jovens voluntários, cria ainda uma ponte intergeracional que pode reforçar laços comunitários e promover competências de cuiddo animal.
Dados práticos e próximos passos
| Elemento | Valor |
|---|---|
| Orçamento | 21 000 € |
| Duração do piloto | 1 ano |
| Beneficiários previstos | 6 idosos |
| Voluntários previstos | 12–18 jovens |
| Horas de formação | 25 horas |
A concretização do programa dependerá do processo de seleção e formação que agora se inicia. Nos próximos meses, serão definidos os calendários das visitas e os critérios de admissão dos idosos e dos voluntários, bem como os protocolos de acompanhamento clínico e de segurança envolvidos nas interações entre pessoas e animais.
Este tipo de iniciativas ilustra a procura, nos Açores, de respostas integradas que respondam simultaneamente a desafios sociais e sanitários e a problemas concretos da gestão animal em contexto insular, valorizando organizações locais e práticas comunitárias.
Reportagem de Micaela Medeiros, correspondente nos Açores.