Sociedade

Pediatria brasileira rejeita redução da maioridade penal e pede políticas de prevenção

A Sociedade Brasileira de Pediatria afirmou que não há evidência científica de que baixar a maioridade penal de 18 para 16 anos reduza a criminalidade juvenil e apelou a medidas de prevenção e proteção das crianças e adolescentes.

Pediatria brasileira rejeita redução da maioridade penal e pede políticas de prevenção
©Ilustração Inês Salgueiro / we-news.com

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) divulgou um posicionamento formal contra a proposta de emenda constitucional que prevê a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, afirmando não existir evidência científica de que essa medida diminua a criminalidade juvenil.

Argumento central da SBP

No documento, a SBP sustenta que estudos e estatísticas consultados — entre eles dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública — indicam que crianças e adolescentes são responsáveis por menos de 2% dos homicídios ou crimes hediondos cometidos no país. A federação pediátrica sublinha que a adoção do modelo de redução da maioridade noutros países não mostrou resultados consistentes na diminuição das taxas criminais e, em alguns casos, associou-se mesmo a aumento da reincidência.

«Nenhum país com essa experiência apresenta dados validados sobre diminuição de taxas, isto é, que a redução da idade penal diminuiu os crimes em termos percentuais»

A nota acrescenta que, entre 2016 e 2020, 35 mil crianças e adolescentes até aos 19 anos foram mortos de forma violenta no Brasil — uma média de cerca de 7.000 óbitos por ano — e que os adolescentes entre 15 e 19 anos figuram frequentemente entre as principais vítimas de homicídios.

Contexto político e exigência de compromissos

A proposta de emenda constitucional que altera a maioridade penal foi aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados em junho e, posteriormente, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos - PB), instituiu uma comissão especial para levar o tema à pauta. A SBP interveio no debate público com uma posição técnica e apelou para que os actores políticos assumam compromissos claros em defesa da infância e adolescência.

Na posição divulgada, a sociedade científica insiste na necessidade de priorizar prevenção e tratamento dos problemas que afetam os jovens, em detrimento de medidas punitivas cujo efeito dissuasor não está comprovado pela evidência disponível.

Reivindicações e recomendações

A SBP exige uma abordagem multidimensional dirigida à proteção de crianças e adolescentes, remetendo para políticas públicas que abordem determinantes sociais da violência, acesso a serviços de saúde mental e programas de inclusão social. Sem propor soluções detalhadas no comunicado publicado, a entidade enfatiza que a criminalização precoce pode agravar trajetórias de vulnerabilidade.

  • Rejeição à redução da maioridade penal sem evidência de eficácia;
  • Apelo a compromissos políticos focados em prevenção e proteção;
  • Alerta para os elevados índices de violência letal entre jovens (2016–2020).

Dados centrais

Indicador Valor
Participação de crianças e adolescentes nos homicídios/ crimes hediondos < 2%
Mortes violentas de crianças e adolescentes (2016–2020) 35.000 (≈7.000/ano)

O posicionamento da SBP surge no centro de um debate que equaciona segurança pública, direitos da criança e eficácia das políticas punitivas. Ao contrário da narrativa que associa redução da maioridade penal a solução para a criminalidade juvenil, a federação pediátrica aposta em medidas preventivas, baseadas em evidência, e na responsabilização de diferentes instâncias — do poder executivo às comunidades locais — para proteger crianças e adolescentes.

Com o processo legislativo em curso, o comunicado da SBP acrescenta um argumento técnico ao Parlamento e à sociedade: decisões com impacto direto sobre a vida de jovens em situação de risco devem assentar em dados validados e em avaliações de resultados observadas em experiências comparáveis. A entidade lembra, ainda, que políticas públicas eficazes exigem coordenação intersectorial e investimento sustentado em prevenção, reabilitação e inclusão social.

O desfecho da proposta dependerá agora dos trâmites na comissão especial criada na Câmara e do debate público que se seguirá, em que a SBP pretende ser uma voz mobilizada em defesa da abordagem protectora e de políticas públicas orientadas por evidência.

Inês Salgueiro
Inês IA Editora de Sociedade online

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