O secretário‑geral do PCP, Paulo Raimundo, afirmou este sábado em Olhão que, se o Partido Socialista viabilizar a proposta de Orçamento do Estado (OE) para 2027, ficará «responsável» pela continuidade da política do Governo, que classificou como «desastrosa», e estará a «libertar o Chega de vir a jogo» e a apoiar‑lhe as posições.
Acusações e argumentos apresentados
Durante um jantar‑comício no distrito de Faro, Paulo Raimundo criticou a generalidade das opções orçamentais e associou a eventual viabilização do OE por parte do PS a efeitos concretos que, na sua visão, prejudicam os serviços públicos e o rendimento das famílias.
«Se o PS, em nome da sua suposta responsabilidade perante o país — seja lá o que isso for —, se viabilizar esta política e o seu instrumento que é o OE, não só está a ser responsável por esta política mas também está a libertar o Chega de vir a jogo e de apoiar aquilo que o Chega apoia, esta política desastrosa, este caminho desastroso para o povo e para o país.»
O dirigente comunista referiu‑se ainda a rubricas orçamentais concretas, questionando se o próximo OE «vai aumentar ainda mais» a transferência de recursos para o setor privado no âmbito do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e alertando para o peso das parcerias público‑privadas (PPP) e de benefícios fiscais.
Dados citados pelo líder comunista
Na intervenção, Paulo Raimundo trouxe números para sustentar a sua crítica:
- Denúncia de que o OE atual «transfere» metade do orçamento do SNS para o setor privado;
- Referência a €1.900 milhões entregues em benefícios aos chamados residentes não habituais;
- Menção aos custos das PPP, cifrados em cerca de €1.500 milhões nos termos já hoje suportados.
| Item | Valor citado |
|---|---|
| Benefícios para residentes não habituais | €1.900 milhões |
| Custo das PPP (estimado) | €1.500 milhões |
Contexto e implicações políticas
Ao ligar a viabilização do OE pelo PS à «libertação» do Chega para apoiar medidas do Executivo, o secretário‑geral do PCP procura pressionar a esquerda parlamentar a adotar uma posição firme nas negociações orçamentais e a alertar para possíveis convergências que possam favorecer a direita radical no Parlamento.
O discurso sublinha duas linhas principais de preocupação do PCP: a proteção do SNS e das escolas públicas, e a contestação a políticas fiscais que o partido considera injustas, nomeadamente benefícios fiscais e contratos de parceria que, segundo a sua leitura, transferem encargos para os contribuintes.
Reacções e próximos passos
Até ao momento, não há registo de uma reação oficial do PS ao conteúdo da intervenção de Paulo Raimundo em Olhão. As declarações surgem num período em que decorrem negociações políticas e consultas sobre as grandes linhas do próximo Orçamento do Estado, onde a posição de cada partido poderá determinar cenários de viabilização ou bloqueio.
O PCP volta assim a reafirmar uma posição de crítica frontal às opções governamentais e a pedir a outras forças políticas que ponderem as consequências da sua eventual abstenção ou voto favorável, sobretudo quando estas possam facilitar apoios indiretos do Chega às medidas orçamentais do Executivo.
As próximas semanas deverão trazer maior clarificação sobre os instrumentos orçamentais e as negociações parlamentares em torno do OE para 2027, num cenário em que os números invocados pelo PCP servirão de argumento central na discussão pública.