Com o falecimento da atriz Laura Cardoso, o país perdeu uma intérprete cuja trajetória atravessou e ajudou a escrever a história do espetáculo no Brasil. A sua carreira, lembrada pela capacidade de construir personagens complexos e pela «força do olhar», estendeu‑se pelo rádio, pelo teatro, pelo cinema e pela televisão, adaptando‑se às diversas fases e transformações dos meios artísticos.
Inícios no rádio e passagem por emissoras pioneiras
A atriz começou a sua actividade profissional na adolescência, primeiramente na Rádio Cosmos e, em seguida, na Rádio Tupi. Com a chegada da televisão ao Brasil, integrou o elenco da TV Tupi, onde trabalhou numa época em que a produção televisiva era feita de forma artesanal. Nesse período inicial destacaram‑se programas e formatos como o teleteatro e produções como «Tribunal do coração» e iniciativas do que se chamou então de «TV de vanguarda».
Transição para a televisão comercial e papéis de destaque
Permaneceu na Tupi até ao encerramento das actividades da emissora, em 1980. A seguir a esse capítulo, inaugurou um novo ciclo de afirmação artística ao ingressar na TV Globo, onde se destacaria na novela Brilhante, de Gilberto Braga, obra que assinalou o seu período de maior visibilidade na televisão comercial do país.
- Rádio: início profissional na Rádio Cosmos; trabalho na Rádio Tupi.
- Televisão: passagem pela TV Tupi; depois na TV Globo, com destaque para «Brilhante».
- Teatro: colaborações significativas com Antunes Filho em montagens que marcaram a sua carreira.
O teatro e a colaboração com Antunes Filho
No teatro, a colaboração com o encenador Antunes Filho salientou‑se como um dos momentos mais relevantes da sua trajectória. Em 1959 participou em «Plantão 21», de Sidney Kingsley, uma montagem inicialmente notada pela concepção cenográfica que reproduzia, com rigor, o ambiente de uma delegacia de polícia. Décadas depois, em 1993, retomou a parceria com Antunes em Vereda da salvação, de Jorge Andrade.
Nessa segunda encenação, a sua interpretação de Dolor — mãe do fanático Joaquim — foi apontada como uma das maiores da sua carreira. A representação surpreendeu pelo trabalho físico, nomeadamente a postura curvada, e pela alteração do registo vocal, evidenciando um domínio técnico e uma densidade dramática que se tornaram marcas da sua presença em cena.
| Meio | Exemplos citados |
|---|---|
| Rádio | Rádio Cosmos; Rádio Tupi |
| Televisão | TV Tupi; TV Globo — «Brilhante» |
| Teatro | «Plantão 21» (1959); «Vereda da salvação» (1993) |
Legado de uma intérprete versátil
Ao longo de décadas, construiu personagens multifacetadas e acumulou uma vasta experiência que serviu de referência para gerações seguintes. Reconhecida pela expressividade — «a força do olhar» que a caracterizava —, a actriz transitou com desenvoltura entre linguagens e cenários distintos, participando ativamente de momentos de renovação estética e técnica na dramaturgia brasileira.
O seu percurso revela não apenas uma longevidade profissional, mas também uma capacidade de reinvenção e de entrega à personagem, qualidades que consolidaram a sua posição entre os nomes maiores do teatro e da televisão no país.