Tecnologia

Modi alerta para riscos de instrumentalização tecnológica e minerais críticos nos BRICS

Na cimeira dos BRICS em Nova Deli, o primeiro‑ministro indiano sublinhou o perigo de usar tecnologia e minerais essenciais como ferramentas geopolíticas e apelou a uma governação comum e inclusiva da inovação.

Modi alerta para riscos de instrumentalização tecnológica e minerais críticos nos BRICS
©Ilustração Bruno Vaz Loureiro / we-news.com

O primeiro‑ministro da Índia, Narendra Modi, advertiu hoje para o perigo de transformar a tecnologia e os minerais críticos em «armas» geopolíticas, durante a sessão plenária que encerrou a parte principal da cimeira dos BRICS em Nova Deli. O discurso surge num momento de intensa competição global pela liderança tecnológica e pelo controlo de cadeias de valor que alimentam a inteligência artificial e as indústrias de energia limpa.

Alerta sobre a instrumentalização de recursos estratégicos

Modi afirmou que o uso destes recursos como instrumentos de pressão pode bloquear um «progresso partilhado» entre os países do agrupamento, pedindo uma abordagem de inclusão na adopção de tecnologias. Na presença do Presidente chinês, Xi Jinping, o primeiro‑ministro indiano defendeu que os membros dos BRICS assumam um papel activo na definição de normas tecnológicas e na governação global.

«O uso da tecnologia e dos minerais críticos como armas pode tornar‑se um obstáculo ao nosso progresso partilhado. Por esta razão, temos sublinhado a importância da inclusão na adoção da tecnologia»

A declaração de Nova Deli, aprovada por unanimidade pelos líderes do bloco alargado, traçou a necessidade de cadeias de abastecimento «fiáveis, diversificadas, resilientes, equitativas e sustentáveis» que maximizem o valor acrescentado para os países envolvidos.

Contexto: domínio do processamento e restrições comerciais

O aviso de Modi realça tensões existentes nas dinâmicas comerciais do agrupamento, sobretudo no que respeita ao processamento de terras raras e outros minerais essenciais para a corrida à inteligência artificial. Um elemento chave deste contexto é o peso da China no processamento destes materiais.

Item Indicador
Processamento de terras raras ~90% mundial (estimado)

Fontes citadas pela imprensa lembram que, no ano anterior, a China reforçou controlos sobre exportações ligadas ao fabrico de tecnologia avançada, numa altura em que relações económicas com os Estados Unidos se mantêm tensas. Essas medidas afetaram fluxos essenciais para a Índia, que procura expandir os seus sectores industriais e as energias limpas.

Estratégias de resposta e cooperação sul‑sul

Para mitigar dependências, Nova Deli tem intensificado acordos bilaterais e parcerias, incluindo um protocolo com o Brasil assinado em fevereiro para cooperação em minerais críticos e terras raras — um movimento estratégico na preparação de cadeias mais seguras e diversificadas.

  • A Declaração de Nova Deli reafirmou a prioridade por cadeias de abastecimento resilientes e sustentáveis.
  • Modi pediu que os BRICS se tornem «criadores de normas» tecnológicas, com envolvimento activo na evolução da IA.
  • A Índia propôs um roteiro composto por dez medidas para reformar a governação global, sem, contudo, detalhar publicamente cada ponto no encerramento da cimeira.

O apelo à cooperação reflecte uma tentativa de equilibrar interesses económicos nacionais com a necessidade de preservar o acesso a insumos estratégicos. Para países que ambicionam maior industrialização e transição energética, garantir cadeias de abastecimento estáveis é hoje tão importante quanto desenvolver capacidades tecnológicas próprias.

Consequências práticas

O debate entre os BRICS sobre minerais e tecnologia tem implicações concretas para a indústria tecnológica global: preços, segurança de fornecimento e investimentos em capacidade de processamento são directos afectados. Para os governos, a alternativa passa por combinações de diplomacia, acordos comerciais e investimentos em capacidades domésticas de refinação e reciclagem.

O tom do discurso de Modi — simultaneamente cauteloso e orientado para a criação de normas — aponta para uma busca de liderança normativa dos BRICS na era pós‑hegemonia tecnológica, tentando transformar preocupações sobre dependência em agendas de cooperação prática.

Do ponto de vista de observadores europeus e nacionais, o que está em jogo é a estabilidade das cadeias globais que alimentam sectores cruciais da economia digital e da transição energética: a resposta dos Estados e blocos económicos a estes sinais terá impacto directo em políticas industriais, segurança e inovação nos próximos anos.

Bruno Vaz Loureiro
Bruno IA Editor de Tecnologia online

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