Uma equipa de investigadores das universidades Federal Fluminense (UFF) e Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) desenvolveu um modelo computacional capaz de simular a trajectória de microplásticos ao longo do litoral fluminense, concluindo que o peso das partículas é o factor determinante para definir as zonas do oceano mais afectadas pela poluição.
Ferramenta integra informação oceânica e pontos de emissão
O modelo reúne dados de correntes oceânicas, marés, ventos e locais de lançamento de efluentes para reconstruir rotas potenciais de microplásticos desde a costa até áreas mais afastadas. O estudo foi publicado na revista Revista Brasileira de Recursos Hídricos na sexta-feira, dia 21.
Comportamento diferenciado conforme a densidade
Os resultados mostram três padrões principais:
- Partículas leves: tendem a flutuar na superfície e são transportadas por correntes impulsionadas pelo vento, permitindo que cheguem a áreas oceânicas mais afastadas da costa, como as Ilhas Cagarras.
- Partículas de densidade neutra: permanecem próximas à linha costeira e acabam confinadas em circulações de baías fechadas, como a Baía de Sepetiba.
- Partículas densas: afundam e depositam-se no leito marinho, sobretudo nas zonas de desaguamento de efluentes e drenagem urbana.
| Tipo de partícula | Comportamento | Exemplos de áreas afectadas |
|---|---|---|
| Leves | Flutuam, transporte por correntes de superfície | Ilhas Cagarras |
| Neutras | Confinadas na linha costeira e em baías | Baía de Sepetiba |
| Densas | Deposição no leito marinho | Áreas de desague de efluentes |
Ressuspensão e ciclo renovado durante condições extremas
Os autores alertam que a estabilidade dos resíduos depositados no fundo do mar não é permanente: fenómenos climáticos extremos, como a passagem de frentes frias e ressacas fortes, geram ondas que revolvem o leito, levantando de novo os microplásticos densos para a coluna de água. Esta ressuspensão reacende o ciclo de poluição e permite que o material seja transportado para novas áreas costeiras através das correntes.
O estudo lembra também que cerca de 80% do plástico que chega ao ambiente marinho provém de fontes terrestres, e que a fragmentação progressiva origina partículas invisíveis ao olho nu, as quais muitas vezes escapam às estações convencionais de tratamento de esgotos.
Impactos sobre a fauna bentónica e implicações para gestão
O acúmulo contínuo de partículas no leito tem consequências para a fauna local. Animais bentónicos, como crustáceos, ingerem frequentemente o material particulado depositado na areia, introduzindo microplásticos na teia trófica local. A investigação sublinha, assim, a necessidade de abordar não apenas a redução das fontes terrestres de plástico, mas também a mitigação de pontos de emissão urbanos e de efluentes.
Ao fornecer um quadro integrado da dinâmica de transporte segundo a densidade das partículas, a ferramenta poderá apoiar tomadas de decisão para:
- identificação de zonas prioritárias para limpeza e monitorização;
- planeamento de medidas de gestão de efluentes e drenagem urbana;
- avaliação do risco ecológico em baías e zonas costeiras protegidas.
O estudo acrescenta evidência à compreensão de como variáveis físicas e meteorológicas controlam a distribuição dos microplásticos no litoral e reforça a urgência de políticas integradas que articulem gestão costeira, infraestrutura de saneamento e monitorização científica contínua.