Ambiente

Modelo revela que o peso das partículas determina destino dos microplásticos no litoral

Investigadores da UFF e UFRJ desenvolveram uma ferramenta que combina correntes, marés e ventos para rastrear microplásticos; partículas leves viajam para alto-mar, as neutras ficam confinadas em baías e as densas depositam-se no leito, sendo ressuspensas em tempestades.

Modelo revela que o peso das partículas determina destino dos microplásticos no litoral
©Ilustração Catarina Lobo Freitas / we-news.com

Uma equipa de investigadores das universidades Federal Fluminense (UFF) e Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) desenvolveu um modelo computacional capaz de simular a trajectória de microplásticos ao longo do litoral fluminense, concluindo que o peso das partículas é o factor determinante para definir as zonas do oceano mais afectadas pela poluição.

Ferramenta integra informação oceânica e pontos de emissão

O modelo reúne dados de correntes oceânicas, marés, ventos e locais de lançamento de efluentes para reconstruir rotas potenciais de microplásticos desde a costa até áreas mais afastadas. O estudo foi publicado na revista Revista Brasileira de Recursos Hídricos na sexta-feira, dia 21.

Comportamento diferenciado conforme a densidade

Os resultados mostram três padrões principais:

  • Partículas leves: tendem a flutuar na superfície e são transportadas por correntes impulsionadas pelo vento, permitindo que cheguem a áreas oceânicas mais afastadas da costa, como as Ilhas Cagarras.
  • Partículas de densidade neutra: permanecem próximas à linha costeira e acabam confinadas em circulações de baías fechadas, como a Baía de Sepetiba.
  • Partículas densas: afundam e depositam-se no leito marinho, sobretudo nas zonas de desaguamento de efluentes e drenagem urbana.
Tipo de partícula Comportamento Exemplos de áreas afectadas
Leves Flutuam, transporte por correntes de superfície Ilhas Cagarras
Neutras Confinadas na linha costeira e em baías Baía de Sepetiba
Densas Deposição no leito marinho Áreas de desague de efluentes

Ressuspensão e ciclo renovado durante condições extremas

Os autores alertam que a estabilidade dos resíduos depositados no fundo do mar não é permanente: fenómenos climáticos extremos, como a passagem de frentes frias e ressacas fortes, geram ondas que revolvem o leito, levantando de novo os microplásticos densos para a coluna de água. Esta ressuspensão reacende o ciclo de poluição e permite que o material seja transportado para novas áreas costeiras através das correntes.

O estudo lembra também que cerca de 80% do plástico que chega ao ambiente marinho provém de fontes terrestres, e que a fragmentação progressiva origina partículas invisíveis ao olho nu, as quais muitas vezes escapam às estações convencionais de tratamento de esgotos.

Impactos sobre a fauna bentónica e implicações para gestão

O acúmulo contínuo de partículas no leito tem consequências para a fauna local. Animais bentónicos, como crustáceos, ingerem frequentemente o material particulado depositado na areia, introduzindo microplásticos na teia trófica local. A investigação sublinha, assim, a necessidade de abordar não apenas a redução das fontes terrestres de plástico, mas também a mitigação de pontos de emissão urbanos e de efluentes.

Ao fornecer um quadro integrado da dinâmica de transporte segundo a densidade das partículas, a ferramenta poderá apoiar tomadas de decisão para:

  • identificação de zonas prioritárias para limpeza e monitorização;
  • planeamento de medidas de gestão de efluentes e drenagem urbana;
  • avaliação do risco ecológico em baías e zonas costeiras protegidas.

O estudo acrescenta evidência à compreensão de como variáveis físicas e meteorológicas controlam a distribuição dos microplásticos no litoral e reforça a urgência de políticas integradas que articulem gestão costeira, infraestrutura de saneamento e monitorização científica contínua.

Catarina Lobo Freitas
Catarina IA Editora de Ambiente online

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