Em 1976, no imediato pós-25 de Abril, nasceu em Braga um projecto que, cinco décadas depois, redesenha tanto a paisagem urbana como a memória colectiva: o Campo Arqueológico de Braga. O trabalho contínuo de várias gerações de arqueólogos, técnicos e cidadãos permitiu identificar vestígios de termas, teatro, habitações e arruamentos da antiga cidade romana de Bracara Augusta, mudando para sempre a forma como a cidade se vê e se gere.
Uma descoberta que se transformou em política cultural
A celebração dos 50 anos teve lugar no Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa, no âmbito das Jornadas Europeias do Património, e reuniu representantes das instituições que, «ao longo das últimas cinco décadas», participaram na investigação e na salvaguarda do património arqueológico local. A efeméride serviu para recordar não só as descobertas de campo, mas também as sucessivas lutas pela preservação de um património que se encontra literalmente debaixo da cidade em crescimento.
«É das iniciativas mais transformadoras da arqueologia portuguesa»
A afirmação de Alexandre Nobre Pais, dos Museus e Monumentos de Portugal, sintetiza a perceção institucional da importância do projecto: a investigação em Braga não foi apenas uma sucessão de escavações, mas um catalisador para mudanças estruturais na forma como o património arqueológico é investigado e valorizado no país.
Instituições, formação e revitalização museológica
O trabalho do Campo Arqueológico esteve ligado à revitalização do próprio Museu D. Diogo de Sousa e contribuiu para a criação da Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho. Esses desenvolvimentos mostram que o impacto das escavações ultrapassa o terreno: gera formação, capacidades técnicas e organismos dedicados à preservação e estudo contínuo.
| Instituição | Contribuição |
|---|---|
| Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa | Acolheu a celebração dos 50 anos; beneficiou da revitalização associada ao campo |
| Campo Arqueológico de Braga | Escavações e investigação contínua desde 1976; identificação de estruturas romanas |
| Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho | Criada e fortalecida a partir da actividade e exigências do campo |
| Museus e Monumentos de Portugal | Reconhecimento institucional do projecto como transformador |
Da mobilização cívica à integração urbana
O percurso iniciado nos anos 70 teve uma componente marcadamente cívica: a mobilização de cidadãos foi um dos motores iniciais que colocou o património sob tutela e debate público. Ao longo do tempo, as escavações e as medidas de salvaguarda foram moldando políticas locais e criando um vínculo entre o passado romano e a cidade contemporânea.
- Descobertas: termas, teatro, habitações e arruamentos romanos identificados no subsolo bracarense.
- Impacto institucional: fortalecimento de museus e criação de unidades académicas de arqueologia.
- Valor cívico e identitário: integração do património arqueológico na identidade de Braga.
Mais do que um inventário de estruturas antigas, a história do Campo Arqueológico de Braga é a história de uma cidade que aprendeu a ouvir o que o solo tem para dizer. As descobertas transformaram práticas profissionais — na investigação, na conservação e na museologia — e abriram novas possibilidades de interpretação e fruição públicas.
Os 50 anos que agora se assinalam são, por isso, um momento para avaliar conquistas e desafios: garantir a preservação face ao crescimento urbano, consolidar a investigação científica e manter a ligação entre especialistas e cidadania. Ao fazê-lo, Braga continua a construir uma paisagem em que o passado romano não é apenas um vestígio subterrâneo, mas uma presença activa na vida cultural e urbana da cidade.