Mário Centeno apresentou esta sexta-feira o livro «Contas Certas», um volume de 496 páginas em que o antigo ministro das Finanças e ex-governador do Banco de Portugal reflexiona sobre a disciplina orçamental e sobre a governação que integrou, sem dirigir críticas directas ao Executivo atual, mas com avisos para o futuro.
Mensagem central e postura sobre um eventual regresso
No lançamento, Centeno rejeitou colocar um limite absoluto a um eventual retorno à actividade política: «Faço jus àquela expressão, celebrada até em cinema. Não dizer nunca nunca», afirmou. Ao mesmo tempo, deixou claro que não se imagina no lugar de primeiro-ministro: «não gostava de ser primeiro-ministro», declarou segundo os relatos da sessão.
«Contas certas não são um slogan. São um princípio de vida»
O autor sublinhou a dimensão pessoal da preocupação com as finanças públicas, usando um exemplo quotidiano para ilustrar a sua obsessão por «contas certas»: «os meus irmãos podem dizer como é viver com alguém obecado com contas certas quando íamos ao supermercado comprar sabonete», disse, em tom bem-humorado.
Reflexão sobre a experiência governativa e apelo à preparação
O livro aborda a alteração do quadro político português com a chamada «geringonça», alcunha atribuída à solução de coligação que principiou em 2015. Centeno recorda a génese desse acordo e elogia o equilíbrio e o respeito que, na sua perspectiva, fizeram a solução resultar: «Nasceu numa mesa de três pernas a ‘geringonça’. Quem viveu a experiência por dentro sabe porque ela resultou. Havia um equilíbrio na mesa de três pernas e muito respeito», afirmou.
Quanto à governação presente, o autor insiste que prefere não apontar críticas directas, concentrando-se antes em advertências para os desafios futuros. «Os políticos que preparam o dia a dia não pensam no futuro», afirmou, defendendo que a preparação é essencial e que a falta de coragem nessa preparação beira a imprudência.
Presença do líder do PS e leitura política
Na sessão de apresentação, marcou presença o líder do Partido Socialista, José Luís Carneiro, que trocou algumas palavras com Centeno antes do início formal do evento. Carneiro qualificou Centeno como um «grande ministro das Finanças (...) num tempo político feliz» e sublinhou que cabe ao próprio Centeno decidir sobre um eventual regresso à militância partidária.
Em declarações proferidas na véspera à CMTV, o líder do PS já tinha realçado a «relação excelente» que mantém com Centeno e declarou que «teria muito gosto em contar» com o seu contributo, caso viesse a ser primeiro-ministro. Na apresentação do livro, Carneiro voltou a elogiar o percurso do antigo responsável pelas finanças.
Conteúdos do livro e enquadramento
«Contas Certas» dedica largo espaço a temas orçamentais e à forma como esses princípios se reflectem na conjuntura política. Centeno afirma, segundo o resumo da sessão, não ter formulado críticas directas ao Executivo em funções, preferindo lançar alertas e recomendações sobre a condução das políticas públicas e a necessidade de planificação de longo prazo.
- Tema central: disciplina orçamental e preparação para o futuro.
- Posição pessoal: não exclui um regresso à política; não ambiciona o cargo de primeiro‑ministro.
- Presença institucional: José Luís Carneiro participou na apresentação e elogiou o trabalho de Centeno.
| Título | Páginas | Contexto |
|---|---|---|
| «Contas Certas» | 496 | Reflexões sobre finanças públicas e experiência governativa |
O lançamento insere‑se num momento em que a figura de Centeno continua a suscitar atenção política, tanto pelo currículo — ministro das Finanças nos governos de António Costa e posteriormente governador do Banco de Portugal — como pela possibilidade de vir a ocupar novamente um papel público relevante. No entanto, o próprio autor relativizou uma hipótese imediata de regresso à liderança do Governo, privilegiando a ideia de contributo técnico e de reflexão sobre a condução das contas públicas.
Ao centrar a discussão em «contas certas», Centeno procura colocar a disciplina orçamental como princípio orientador da acção política e apela para que essa prioridade não se perca, citando ainda elementos culturais e musicais para sublinhar uma chamada de atenção coletiva: «Ai Portugal Portugal, do que estás à espera», recordou, citando Jorge Palma.
As declarações proferidas e a presença de dirigentes do PS na sessão alimentam interpretações sobre eventual influência política do autor, mas o livro apresenta‑se sobretudo como um compêndio de posições e advertências sobre a necessidade de planear o futuro com base em princípios orçamentais, sem ataques directos ao executivo em funções.