As contas da Sociedade Moçambicana de Medicamentos (SMM) apontam para uma redução abrupta dos resultados em 2025: os lucros da estatal caíram 98,5%, fixando‑se em 10,1 milhões de meticais (cerca de 137 mil euros), segundo as demonstrações financeiras a que a agência Lusa teve acesso.
Quebra explicada pela ausência de ganhos extraordinários
O relatório financeiro destaca que os resultados líquidos alcançados em 2025 ficam muito aquém dos 674,7 milhões de meticais (aproximadamente 9,1 milhões de euros) registados em 2024. Essa diferença é atribuída, nas contas da administração, à falta dos ganhos extraordinários que tinham beneficiado o exercício anterior.
Em 2024, a SMM contabilizou, através da valorização da sua participação na Indústria Farmacêutica de Moçambique (Infarma) — empresa na qual detém 49% —, ganhos extraordinários da ordem dos 667,4 milhões de meticais (cerca de 9 milhões de euros). Essa valorização resultou de um aumento de capital na Infarma, realizado ao abrigo de um acordo de accionistas, sem alteração das percentagens de participação entre sócios.
Resultados consolidados e vendas em queda
Nas contas consolidadas do grupo, o panorama é ainda mais negativo: registou‑se um prejuízo de 74,6 milhões de meticais (cerca de um milhão de euros) em 2025, face a lucros consolidados de 639,9 milhões de meticais (8,6 milhões de euros) no ano anterior.
As vendas da SMM também recuaram de forma marcada: passaram de 123,3 milhões de meticais (1,7 milhões de euros) em 2024 para 64,3 milhões de meticais (872 mil euros) em 2025 — uma redução próxima de 48%.
- Produto mais vendido: álcool etílico, com receitas próximas de 61 milhões de meticais (827 mil euros).
- Aumento dos valores a receber: de 61,4 milhões de meticais para 87,2 milhões de meticais.
- Propriedade: a SMM é detida a 100% pelo Instituto de Gestão de Participações do Estado (Igepe).
«Risco significativo»
O relatório chama ainda a atenção para um agravamento do risco de crédito: os valores a receber de clientes passaram de 61,4 milhões para 87,2 milhões de meticais (aproximadamente 832 mil euros para 1,2 milhões de euros), e a administração reconhece enfrentar um «risco significativo» devido ao facto de efectuar a maioria das vendas a crédito.
Contexto e actividade
A SMM, constituída em 03 de dezembro de 2008 e integralmente detida pelo Igepe, opera a partir do Parque Industrial de Beluluane, no distrito de Boane, província de Maputo. A empresa tem como objectivo principal a promoção da produção local de medicamentos e de produtos de saúde, bem como a produção, embalagem e comercialização desses bens.
Os números agora divulgados evidenciam a forte dependência dos resultados operacionais de variações patrimoniais e de acontecimentos extraordinários no universo das participadas. Em 2024, a valorização contabilística da participação na Infarma foi determinante para o desempenho positivo; em 2025, a sua ausência deixou em evidência fragilidades operacionais e de tesouraria.
| Indicador | 2024 (meticais) | 2025 (meticais) |
|---|---|---|
| Resultado líquido | 674,7 milhões | 10,1 milhões |
| Resultados consolidados | 639,9 milhões (lucro) | −74,6 milhões (prejuízo) |
| Vendas | 123,3 milhões | 64,3 milhões |
Os dados divulgados obrigam a um acompanhamento atento das medidas que a administração e o Estado, enquanto accionista único, possam adoptar para mitigar os riscos financeiros identificados — em particular no que respeita à recuperação de créditos e à diversificação das receitas. A importância da SMM na cadeia de abastecimento de medicamentos e insumos de saúde torna estas contas relevantes para políticas públicas de acesso a medicamentos e para a estabilidade do sector farmacêutico no país.
As demonstrações financeiras consultadas pela Lusa não detalham, para já, qualquer plano concreto de reestruturação operacional ou financeira, nem referências a iniciativas imediatas do Igepe. Perante a realidade exposta, as próximas decisões de gestão e políticas determinarão se a SMM recupera capacidade financeira sem comprometer a sua missão pública.