Bentiu, no norte do Sudão do Sul, tornou‑se um exemplo vivo dos impactos acumulados das alterações climáticas, da presença de infraestruturas petrolíferas e das crises humanitárias. O que era outrora uma pequena vila cresceu para acolher um campo onde, desde 2013, cerca de 140.000 pessoas deslocadas procuram abrigo, sustentados por agências das Nações Unidas, incluindo a Organização Internacional para as Migrações (OIM), o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).
Águas que não recuam e meios de subsistência destruídos
Da perspetiva aérea, a área onde está instalado o campo de Proteção de Civis (PoC) parece uma ilha no meio de uma vasta extensão de água. Comunidades nómadas do Sudd, uma das maiores zonas húmidas sazonais do mundo, adaptaram‑se historicamente às enchentes. Contudo, eventos recentes mostram um padrão de exceção: em 2021 uma cheia sem precedentes, atribuída em parte às alterações climáticas, inundou áreas agrícolas, destruiu meios de subsistência e provocou perdas significativas de gado.
As autoridades de países vizinhos já haviam alertado para a subida do nível do Lago Vitória — situado cerca de 1.000 km a sul — que tem repercussões no Nilo Branco, o mesmo rio que atravessa Bentiu. O aumento das águas agravou a permanência das enchentes e a dificuldade em drenar zonas onde vivem milhares de pessoas.
Pesca e poluição: uma opção perigosa mas necessária
No campo, a escassez de alimentos leva os residentes a recorrer à pesca local. Mas a proximidade de campos petrolíferos levanta questões sérias sobre a segurança dos recursos aquáticos. Pescadores, ao separarem as capturas, distinguem entre peixes que consideram saudáveis e outros que julgam contaminados — estes últimos são normalmente vendidos a preços mais baixos e consumidos por quem tem menos alternativas.
«Quando os cozinhamos, a sopa muitas vezes tem cheiro de penicilina. Mas não temos escolha. Não podemos parar de comer»,
afirmou Simon Gatkuoth, morador do campo, que descreve o dilema diário de muitos habitantes: optar por alimentos possivelmente contaminados por hidrocarbonetos ou enfrentar a fome.
- 140.000 deslocados vivem no campo de Proteção de Civis em Bentiu desde 2013.
- Em 2021, uma cheia sem precedentes inundou grandes áreas do Sudd e causou perdas de meios de subsistência.
- Proximidade de campos petrolíferos levanta suspeitas sobre contaminação de peixes e águas.
Consequências para a saúde e para a gestão humanitária
A presença de vestígios de produtos petrolíferos na água e em pescado pode ter efeitos imediatos e de longo prazo na saúde das populações. Embora o relato dos moradores refira odores e suspeitas de contaminação, o texto disponível não detalha análises laboratoriais concretas nem resultados de monitorização ambiental publicados por agências independentes. Ainda assim, a situação ilustra dois problemas interligados: a vulnerabilidade das comunidades deslocadas e a dificuldade de garantir alimentos seguros em contextos de crise e degradação ambiental.
As agências da ONU presentes em Bentiu desempenham um papel essencial na gestão do abrigo e da assistência, mas a combinação de cheias persistentes e risco de poluição complica intervenções como a distribuição de alimentos, o fornecimento de água potável e a prestação de cuidados de saúde. O cenário exige respostas integradas que incluam monitorização ambiental, avaliação dos riscos alimentares e medidas de proteção social para reduzir a necessidade de recorrer a recursos potencialmente perigosos.
O caso de Bentiu enquadra‑se numa tendência mais vasta: alterações no regime hídrico e eventos extremos, potenciados pelas mudanças climáticas, estão a reconfigurar paisagens e modos de vida, ao mesmo tempo que ampliam pressões sobre ecossistemas já afetados por atividades extractivas. A conjugação destas forças aumenta os desafios para os responsáveis humanitários e autoridades locais e regionais.
Perante este quadro, soluções exigem coordenação entre entidades de proteção civil, agências humanitárias e operadores de exploração, para assegurar monitorização da qualidade da água e do pescado, fornecer alternativas seguras de alimentação e reduzir riscos de exposição. Sem estes passos, os habitantes de Bentiu continuarão a enfrentar uma escolha impossível entre a fome e a ingestão de alimentos potencialmente contaminados.