O número de postos de abastecimento ligados a hipermercados em Portugal quase duplicou nos últimos 16 anos, passando de 167 em 2010 para 317 em 2026, segundo um estudo da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE) solicitado pela ministra da Energia. A evolução integra‑se numa mudança mais ampla na estrutura do retalho de combustíveis, com impacto sobre preço, concorrência e modelos de negócio.
Queda do peso das petrolíferas e diversificação de operadores
De acordo com o relatório, a rede nacional de postos abertos ao público era composta por 3 457 instalações no primeiro semestre de 2026. No mesmo período, o peso global das petrolíferas tradicionais (Galp, Repsol, BP e Moeve) diminuiu de cerca de 68% em 2010 para 58% em 2026. Paralelamente, registou‑se um crescimento expressivo de redes alternativas e formatos de retalho.
«num movimento acompanhado pela diversificação dos operadores e dos formatos comerciais»
O estudo destaca diferenças entre marcas: a BP aumentou de 314 para 500 postos, a Repsol de 407 para 531, enquanto a rede da Moeve diminuiu de 246 para 194. A Prio, quase inexistente no início da série, passou de 3 instalações em 2012 para 227 em 2026.
Concorrência nos preços e impacto para consumidores
O crescimento dos postos associados a hipermercados tem contribuído para a oferta de combustíveis mais baratos face às petrolíferas, refere a ERSE, sobretudo num contexto de instabilidade internacional que tem pressionado os preços. A entidade indica que, em média, a poupança por litro de gasóleo ou gasolina em postos de hipermercados tem variado entre 12 e 14 cêntimos nos últimos meses.
Além dos hipermercados, surgiram também redes automatizadas de baixo custo — como a Petroprix e a Plenergy — e modelos com o objetivo de atrair clientes aos espaços comerciais, o que explica parte da expansão. Os postos ‘low cost’ com frequência estão ligados a áreas de retalho, sublinhando uma estratégia integrada de comércio.
O que muda para o mercado e para o regulador
A evolução descrita pela ERSE aponta para uma estrutura retalhista mais fragmentada e para a coexistência de modelos comerciais distintos. As consequências são múltiplas:
- Pressão competitiva sobre preços: maior oferta por canais alternativos tende a reduzir o preço médio ao consumidor e a criar diferenças de preço entre zonas.
- Reconfiguração da rede: petrolíferas tradicionais podem focar‑se em áreas estratégicas, enquanto operadores novos ou de retalho captam clientes por preço ou conveniência.
- Impacto no acesso: a dispersão de modelos pode melhorar a acessibilidade em algumas áreas, mas também criar bolsões de oferta concentrada em torno de hipermercados.
Para o regulador, a fragmentação do mercado implica monitorização contínua das práticas comerciais, dos preços e da concorrência, bem como atenção ao papel das cadeias de grande distribuição no abastecimento de combustíveis.
Dados-chave
| Indicador | 2010 / 2012 | 2026 |
|---|---|---|
| Postos de hipermercados | 167 | 317 |
| Rede total de postos (primeiro semestre) | — | 3 457 |
| Peso das petrolíferas | ~68% | ~58% |
| BP (postos) | 314 | 500 |
| Repsol (postos) | 407 | 531 |
| Moeve (postos) | 246 | 194 |
| Prio (postos) | 3 (2012) | 227 |
O relatório da ERSE fornece uma fotografia do setor que confirma tendências já observadas no mercado europeu: diversificação de formatos, entrada de operadores com estruturas de baixo custo e uma pressão permanente sobre os preços finais. Para consumidores portugueses, significa um abanão na oferta e possibilidades de poupança; para os operadores incumbentes, indica a necessidade de adaptar estratégias, seja por preços, serviços adicionais ou redes de conveniência.
O acompanhamento pela autoridade reguladora será determinante para avaliar impactos de médio e longo prazo, nomeadamente em termos de concorrência, transparência tarifária e sustentabilidade da rede de abastecimento.