Educação

Ex-ministro assume responsabilidade pelos maus resultados do PISA e reabre debate sobre políticas educativas

João Costa reconheceu em entrevista que não pode fugir à responsabilidade pelos resultados PISA, enquanto críticas apontam para uma transformação ideológica da escola pública suportada por leis, despachos e guias administrativos.

Ex-ministro assume responsabilidade pelos maus resultados do PISA e reabre debate sobre políticas educativas
©Ilustração Henrique Bandeira / we-news.com

O antigo titular da pasta da Educação, João Costa, admitiu ser responsável pelos fracos resultados obtidos por Portugal no PISA, numa declaração que revive o debate sobre medidas adotadas durante o seu mandato e a sua influência no sistema educativo.

Assunção de responsabilidade e limites temporais

Em declarações à rádio TSF, João Costa afirmou que depois de cerca de oito anos e meio no Executivo seria «absolutamente irresponsável» não assumir parte da responsabilidade pelos maus resultados no PISA. Simultaneamente, relativizou a responsabilidade do atual Governo, argumentando que os resultados são fruto de políticas de «médio e longo prazo» e que, por isso, não cabe ao atual executivo sentir-se responsável por inteiro.

«Por minha culpa, minha tão grande culpa»

O reconhecimento público surge numa altura em que os resultados internacionais são descritos como os piores desde 2006, facto que intensifica a avaliação das escolhas políticas feitas na última década e meia.

Medidas legislativas e administrativas em análise

Os críticos recordam que, quando a Lei n.º 38/2018 foi aprovada, João Costa exercia funções como secretário de Estado da Educação. O artigo 12.º daquela lei impunha ao Estado medidas relativas à «autodeterminação da identidade de género e expressão de género» em todos os níveis de ensino. Em 2019, coassinou o Despacho n.º 7247/2019, que operacionalizou essas exigências nas escolas.

Em 2021, o Tribunal Constitucional, no Acórdão n.º 474/2021, declarou inconstitucionais os números 1 e 3 do artigo 12.º, por violação da reserva de lei parlamentar em matéria de direitos, liberdades e garantias, e por, segundo vários juízes, programar a educação segundo directrizes ideológicas, situação que a Constituição, no seu artigo 43.º, n.º 2, proíbe.

Face a esta decisão, o Ministério da Educação não recuou na linha das políticas. Em vez de anular medidas, optou por introduzir instrumentos administrativos com conteúdo semelhante: em 2023 foi divulgado o guia O Direito a Ser nas Escolas, produzido pela Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG) em parceria com a Direção-Geral da Educação (DGE). No mesmo período, avançou-se também com o Referencial de Educação para a Saúde, que integra, desde o pré-escolar, tópicos sobre identidade, expressão de género e orientação sexual.

Consequências e leitura política

Observadores e opositores falam de uma transformação da escola pública «à revelia das famílias», referindo instrumentos legais, despachos, guias e a criação de disciplinas ou programas obrigatórios como formas de institucionalizar essas orientações. Para estes críticos, tratou‑se de um projecto deliberado — que alguns qualificam como «activismo» — e não de um conjunto de acertos circunstanciais.

Do outro lado, as iniciativas foram defendidas por responsáveis como medidas de promoção da inclusão e da protecção dos direitos. João Costa, autor de um livro intitulado Manifesto pelas Identidades e Famílias, tem também usado uma linguagem que procura equilibrar a argumentação política com um apelo à serenidade. Em entrevistas, utilizou expressões como «deixem as crianças em paz para serem o que são» para justificar intervenções no campo da identidade.

Resumo cronológico

AnoMedida
2018Lei n.º 38/2018: artigo 12.º sobre autodeterminação da identidade de género
2019Despacho n.º 7247/2019: aplicação administrativa nas escolas
2021Acórdão n.º 474/2021 do Tribunal Constitucional: declaração de inconstitucionalidade de partes do artigo 12.º
2023Guia «O Direito a Ser nas Escolas» (CIG e DGE) e Referencial de Educação para a Saúde
  • Responsabilidade política: João Costa assume culpa pelos resultados PISA após anos de mandato.
  • Dimensão jurídica: decisões do Tribunal Constitucional limitaram o enquadramento legal, levando a respostas administrativas.
  • Debate público: confronto entre defesa da inclusão e críticas sobre direccionamento ideológico da escola pública.

O reconhecimento público do ex-ministro e a sucessão de decisões legislativas, administrativas e judiciais colocam de novo a questão central: que impacto tiveram estas políticas no desempenho escolar e na confiança das famílias no sistema educacional? O anúncio reacende o escrutínio sobre as estratégias futuras necessárias para inverter a trajectória observada nos resultados internacionais.

Henrique Bandeira
Henrique IA Editor de Educação online

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