Uma investigação da unidade Observatório da Sociedade Portuguesa, da Universidade Católica, conclui que a maioria dos portugueses manifesta uma preocupação significativa com o impacto ambiental das suas compras, mas que essa sensibilidade nem sempre se traduz em comportamentos de consumo sustentáveis. O estudo, divulgado esta terça-feira, revela contrastes claros entre intenção e prática.
Principais resultados
Segundo o inquérito, quase 80% dos participantes consideram importante que os produtos que utilizam não prejudiquem o ambiente, e cerca de 70% afirmam procurar adquirir bens ambientalmente responsáveis. Ainda assim, na avaliação de práticas concretas surgem lacunas: o sistema Volta — mecanismo de depósito e reembolso para embalagens — é conhecido por quase 83% dos inquiridos, mas apenas 36,4% dizem utilizá‑lo com frequência ou sempre e 35,5% declaram não o utilizar.
| Indicador | Percentagem |
|---|---|
| Consideram importante que produtos não prejudiquem o ambiente | ~80% |
| Procuram comprar produtos ambientalmente responsáveis | ~70% |
| Conhecimento do sistema Volta | ~83% |
| Utilizam o sistema Volta com frequência/sempre | 36,4% |
| Não utilizam o sistema Volta | 35,5% |
| Reconhecem que o impacto ambiental influencia decisões de compra | 60% |
Interpretação e implicações
Os autores do estudo destacam uma diferença entre conhecimento e adesão efetiva a práticas como a devolução de embalagens para reembolso. Segundo o comunicado que acompanha a investigação, existe uma correlação estatisticamente significativa entre quem já utilizou o sistema Volta e a intenção de o voltar a fazer no futuro — ou seja, a experiência prévia tende a reforçar a prática.
«Os resultados mostram que existe uma predisposição clara dos portugueses inquiridos para incorporar as preocupações ambientais nas suas decisões de consumo. No entanto, a existência dessa preocupação não significa, por si só, que os comportamentos sustentáveis estejam já consolidados.»
Esta observação, citada pelo investigador João Pedro Paz, aponta para um desafio político e operativo: transformar atitudes favoráveis em rotinas consolidadas. A diferença entre conhecer um sistema e utilizá‑lo regularmente pode decorrer de barreiras de conveniência, informação insuficiente, ou falta de incentivo económico percebido pelo consumidor — fatores que requerem medidas específicas.
Medidas e prioridades possíveis
Para aumentar a eficácia de instrumentos de economia circular como o sistema Volta, o estudo sugere, implicitamente, a necessidade de intervenções que promovam a adoção repetida. Entre as estratégias plausíveis estão:
- Campanhas de comunicação que expliquem o funcionamento e os benefícios do sistema, dirigidas a segmentos com menor utilização;
- Melhorias logísticas para facilitar a devolução de embalagens (pontos de recolha mais acessíveis, horários flexíveis);
- Iniciativas de incentivo que reforcem a experiência de uso e transformem a utilização pontual em hábito.
Além disso, o facto de 60% dos inquiridos reconhecerem o impacto ambiental nas decisões de compra aponta para uma janela de oportunidade para políticas que articulem informação ao consumidor com medidas de disponibilização de produtos verdadeiramente sustentáveis no mercado.
Contexto mais alargado
Embora o estudo não detalhe causas ou barreiras específicas para a lacuna entre intenção e ação, os resultados alimentam a discussão sobre como acelerar a transição para padrões de consumo mais circulares em Portugal. A eficácia de mecanismos como o sistema Volta dependerá tanto da sua operacionalização prática como da consolidação de hábitos de consumo que atualmente parecem frágeis, apesar da predisposição favorável evidenciada pelos inquiridos.
Os responsáveis por políticas públicas, operadores do sistema e entes locais enfrentam, assim, o desafio de converter conhecimento e boa vontade em comportamentos repetidos e mensuráveis — passo essencial para reduzir resíduos e aumentar a circularidade da economia.