Os indicadores de aprendizagem do Brasil melhoraram nas últimas duas décadas, sobretudo nos anos iniciais do ensino fundamental, mas os ganhos perdem intensidade à medida que os alunos avançam no percurso escolar, indica um levantamento do Todos Pela Educação com base nos resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) e do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) divulgado este mês pelo Ministério da Educação (MEC).
Melhorias concentradas nos anos iniciais
Segundo a tabulação apresentada pela entidade, a proporção de alunos do 5.º ano com aprendizagem classificada como «adequada» cresceu de forma marcada entre 2005 e 2025: em Língua Portuguesa passou de 22,4% para 60,7%, e em Matemática de 14,8% para 50,6%. Os cortes de nível — «abaixo do básico», «básico» e «adequado» — foram definidos a partir de correspondências entre o Saeb e o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa).
Desigualdades aparecem nos anos finais e no ensino médio
Os avanços observados nos anos iniciais não se replicam nos anos finais do ensino fundamental nem no ensino médio. No 9.º ano, por exemplo, apenas 18,8% dos estudantes atingiram o nível adequado em Matemática em 2025, um sinal de persistência de dificuldades na consolidação das competências matemáticas ao longo da escolaridade.
Cidades e redes municipais: Joinville no topo
A análise do Todos Pela Educação, que considerou capitais e cidades de grande porte com pelo menos 20% das matrículas do ensino fundamental em redes municipais, coloca as escolas municipais de Joinville (Santa Catarina) como liderança em todos os rankings da educação fundamental. A cidade destacou-se por apresentar a maior percentagem de crianças tanto no 5.º como no 9.º ano com aprendizagem adequada em Língua Portuguesa e Matemática.
O que a tabulação revela
A abordagem utilizada pelo Todos Pela Educação difere da divulgação agregada dos resultados por apresentar a distribuição dos estudantes por níveis de proficiência, o que permite identificar:
- o peso dos alunos em cada faixa de aprendizagem («abaixo do básico», «básico», «adequado»);
- as trajetórias de melhoria ao longo do tempo, por ano de escolaridade e disciplina;
- diferenças entre redes municipais e entre municípios de grande porte.
| Ano/corte | Língua Portuguesa (5.º ano) | Matemática (5.º ano) |
|---|---|---|
| 2005 | 22,4% | 14,8% |
| 2025 | 60,7% | 50,6% |
| 2025 (9.º ano) | Matemática: 18,8% no nível adequado | |
Consequências e desafios para a política educativa
Os dados apontam para progressos significativos nas fases iniciais, mas também para a necessidade de políticas específicas que ataquem a perda de ritmo no progresso das aprendizagens nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio. A persistência de resultados inferiores em Matemática sugere prioridades estratégicas em termos de formação de professores, currículo e recursos pedagógicos.
Além disso, a diferenciação do desempenho por município evidencia a importância de políticas locais e da autonomia das redes municipais na gestão escolar. A liderança de Joinville aponta para experiências que poderão ser analisadas e partilhadas, sem contudo permitir generalizações automáticas para contextos distintos.
O levantamento reforça a necessidade de monitorização contínua e de instrumentos que permitam não só avaliar resultados agregados, mas também acompanhar as trajetórias de aprendizagem dos alunos ao longo do tempo, identificando onde são necessárias intervenções mais focalizadas.