Os recentes anúncios relativos a um concurso público dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde para a aquisição de um «serviço central de atendimento para telecuidados», com uma base de 900.000 euros, têm provocado debates sobre o papel da tecnologia na gestão das doenças crónicas e sobre a relação entre utente e médico de família.
O que está em causa
Segundo textos publicados na imprensa regional, o concurso pretende implementar um serviço que, através de tecnologia e atendimento remoto, visa «melhor adoção de estilos de vida saudáveis e maior adesão às prescrições médicas, com vista a evitar as agudizações e internamentos evitáveis».
«serviço central de atendimento para telecuidados»
Os proponentes do projeto apontam como objetivos a promoção de comportamentos de saúde e a redução de episódios agudos que provoquem idas às urgências ou internamentos. No entanto, vozes críticas consideram que este tipo de soluções pode constituir, na prática, uma tentativa de substituir funções tradicionalmente desempenhadas pela Medicina Geral e Familiar.
Argumentos de críticos
Entre as críticas destacam-se as seguintes linhas de argumentação:
- a desvalorização da relação continuada e de confiança entre médico de família e utente, que inclui avaliação contínua e conhecimento da história clínica;
- a dúvida sobre o reconhecimento e evidência científica das técnicas de «coaching» aplicadas em saúde, evocando a origem do termo e as suas aplicações históricas fora do contexto clínico;
- o receio de que a triagem por telefone ou por uma aplicação substitua contactos clínicos necessários, com profissionais por vezes não identificados pelo utente;
- o risco de que os indicadores de sucesso do projeto se limitem a métricas administrativas, como o número de idas às urgências ou internamentos, sem avaliação aprofundada de resultados em saúde ou experiência do doente.
O artigo consultado sublinha ainda que a contratação de serviços tecnológicos por empresas privadas — inclusive startups com sucesso comercial — suscita questões sobre prioridades do sistema nacional de saúde e sobre a dependência de soluções externas para problemas que muitos profissionais consideram inerentes à prática médica de base.
Contexto e consequências
O debate em torno de telecuidados e «coaching em saúde» ocorre num momento em que os sistemas de saúde procuram responder ao aumento de doenças crónicas e à pressão sobre serviços de urgência e internamento. A utilização de tecnologias de comunicação e monitorização tem potencial para melhorar o seguimento de doentes, mas especialistas salientam que a implementação deve ser suportada por evidência científica e integrada nos circuitos clínicos existentes, nomeadamente com coordenação com os médicos de família.
Sem dados adicionais públicos sobre o caderno de encargos do concurso, os critérios de seleção dos operadores e as métricas detalhadas de avaliação, mantém-se a incerteza sobre a real influência que este tipo de serviço terá na organização do cuidado. A falta de clareza quanto às competências dos intervenientes no atendimento remoto e à supervisão clínica é um dos pontos que alimenta a crítica.
| Item | Descrição |
|---|---|
| Valor base | 900.000 euros |
| Objetivo declarado | Serviço central de atendimento para telecuidados; promoção de estilos de vida saudáveis e adesão terapêutica |
| Preocupações | Substituição da Medicina de Família; ausência de reconhecimento científico claro do «coaching»; indicadores limitados |
Os intervenientes no debate apelam a reflexão sobre o enquadramento clínico e científico destas iniciativas, bem como à necessidade de transparência nos contratos públicos e de avaliação rigorosa dos impactos em saúde. Para muitos profissionais, qualquer inovação deverá reforçar, não diluir, a coordenação com cuidados primários.
Perante a discussão pública, espera-se que as entidades responsáveis pelo concurso clarifiquem o âmbito do serviço, os requisitos de qualificação dos profissionais que farão o atendimento e os parâmetros de avaliação dos resultados clínicos e de experiência dos utentes.
Este acompanhamento crítico surge num momento em que a adoção de soluções digitais na saúde continua a crescer, exigindo conjugação entre inovação, prova científica e preservação de relações clínicas essenciais.