O Coletivo Gira, grupo de samba composto por mulheres imigrantes e referência das rodas de Lisboa, inicia uma nova busca por um espaço que funcione como sede depois de ter confirmado que os Armazéns Abel Pereira da Fonseca, onde funciona o 8 Marvila, serão demolidos em outubro para dar lugar a um empreendimento imobiliário.
Última roda e pedido de apoio
Em comunicado divulgado nas redes sociais a 23 de setembro de 2026, as artistas anunciaram que farão a sua «última roda» no 8 Marvila na sexta‑feira, dia 25 de setembro. O coletivo apelou à comunidade brasileira e à sociedade civil para ajudar a encontrar um imóvel que permita ancorar a associação num local fixo.
«A Gira está à procura de uma casa. Mas esta não é apenas uma questão nossa. É uma questão de cidade»
No mesmo texto, o grupo relaciona a perda do espaço com a «pressão imobiliária» e com as transformações urbanísticas que dificultam a permanência de pessoas e atividades culturais que ajudaram a construir a vida de muitos bairros.
Trajetória e identidade do coletivo
Ativo desde 2020, o Coletivo Gira tornou‑se um ponto de encontro para públicos diversos — brasileiros, portugueses e imigrantes de outras nacionalidades — e é reconhecido por conjugar música e ação social. O grupo é formado por mulheres LGBTQIAPN+ e posiciona‑se em defesa da diversidade, com uma atuação ligada a causas feministas e ao combate ao racismo e à discriminação.
Em entrevista concedida em 2024, a vocalista e cavaquinista Kali Peres enfatizou que o projeto não se limita à música: «A gente não consegue separar as duas coisas, o nosso posicionamento, quem nós somos. Nossas vivências estão completamente atreladas ao projeto.» Essa dimensão política e comunitária é parte integrante da identidade do coletivo.
Mudanças repetidas de espaços
Ao longo da sua existência, o Coletivo Gira já passou por vários locais em Lisboa. Depois de uma primeira fase em Alfama — onde as artistas relatam ter vivido episódios de violência — o grupo ocupou espaços como o Clube Oriental de Lisboa e outros locais em Marvila antes de se instalar no 8 Marvila.
- Atividade desde: 2020
- Composição: mulheres imigrantes, vocação LGBTQIAPN+ e ativista
- Última apresentação no 8 Marvila: 25 de setembro de 2026
- Destino do edifício: demolição prevista para outubro de 2026
| Local | Estado/Observação |
|---|---|
| Alfama | Antiga sede; relatos de episódios de violência |
| Clube Oriental de Lisboa | Utilizado em momento posterior à saída de Alfama |
| 8 Marvila (Armazéns Abel Pereira da Fonseca) | Fecho anunciado; demolição em outubro de 2026 |
Uma questão de cidade
O apelo do coletivo levanta questões maiores sobre a política urbana e cultural de Lisboa: para além da procura imediata por um espaço físico, o caso do Gira chama a atenção para o modo como a valorização imobiliária pode esvaziar a cidade de iniciativas comunitárias e artísticas. No comunicado, as sambistas perguntam explicitamente que tipo de cidade se está a construir quando os espaços culturais existem apenas até se tornarem atrativos para investimentos imobiliários.
O coletivo tem sido reconhecido por transformar a roda de samba num espaço de afirmação identitária e de encontros interculturais, e sublinha que a perda de um local não é apenas logística — implica rupturas nas redes sociais, na visibilidade e na capacidade de manter um trabalho artístico e político desenvolvido ao longo de anos.
Com a imminente demolição prevista para outubro, a necessidade de uma solução está a tornar‑se urgente. O comunicado do Coletivo Gira funciona, assim, tanto como anúncio do fim de um ciclo no 8 Marvila como um pedido de solidariedade para que a cidade encontre formas de manter vivas essas práticas culturais.