O Conselho das Finanças Públicas (CFP) reviu em alta a estimativa de crescimento da economia portuguesa para 2,2% em 2026, mantendo a projeção em 1,8% para 2027, segundo as projeções divulgadas esta quinta-feira. A revisão para 2026 contrasta com a estimativa de abril, de 1,6%, e situa-se acima da mais recente previsão do Governo, que aponta para 2% de crescimento este ano.
Choques externos e impacto na balança
O CFP atribui a revisão em alta à «resiliência da economia» face a choques recentes, mas sublinha que o segundo semestre de 2026 apresenta condicionantes externas adversas. Entre os factores mencionados estão a retomada de operações militares no Golfo Pérsico, a seca que afecta cerca de metade do território da União Europeia e a orientação mais restritiva do Banco Central Europeu após o ciclo de subidas de juros.
Quanto ao choque energético ligado ao conflito no Médio Oriente e ao encerramento do estreito de Ormuz, a entidade calcula que o aumento dos preços originou um efeito negativo na balança comercial equivalente a 0,4% do Produto Interno Bruto (PIB).
Investimento público e consumo suportam o crescimento
O relatório do CFP destaca que o aumento do investimento público, estimado em cerca de 22,3% em termos nominais, está associado ao termo do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e deverá ajudar a mitigar parcialmente o choque externo. A composição do crescimento, refere a instituição, tem sido suportada pelo consumo privado.
«A composição do crescimento, suportada pelo consumo privado, aponta para que as famílias tenham utilizado as suas poupanças para absorver, em parte, o aumento da despesa em combustíveis, num momento em que o mercado de trabalho se encontra numa situação de pleno emprego.»
O CFP chama atenção para o facto de o mercado de trabalho estar numa situação de pleno emprego, o que terá permitido às famílias usar poupanças para atenuar os choques sobre os preços dos combustíveis.
Perspectivas para os anos seguintes e restrições estruturais
Para além de 2027, o CFP apresenta projecções sequenciais que reflectem uma desaceleração gradual: 1,7% em 2028-2029 e 1,6% em 2030. A instituição alerta também para factores estruturais que limitam o crescimento potencial, entre os quais saldos migratórios menos favoráveis e o envelhecimento populacional, que condicionam a expansão da população em idade activa.
Resumo de projecções
| Ano | Projecção de crescimento (CFP) |
|---|---|
| 2026 | 2,2% |
| 2027 | 1,8% |
| 2028–2029 | 1,7% |
| 2030 | 1,6% |
Consequências e riscos para política económica
A revisão do CFP gera implicações práticas para a discussão orçamental e para as expectativas sobre receitas fiscais, despesa pública e sustentabilidade das contas. Embora a leitura mais optimista para 2026 reduza pressões a curto prazo, os riscos externos — sobretudo no mercado energético e as condições financeiras mais apertadas na zona euro — mantêm a incerteza.
Além disso, o fim progressivo do PRR e as alterações na composição do investimento público exigem atenção: um aumento nominal do investimento superior a 20% pode compensar parcialmente choques, mas a trajectória de investimento futuro dependerá de decisões orçamentais e da execução dos projectos previstos.
- Impacto imediato: crescimento revisto para 2,2% em 2026, acima da estimativa de abril.
- Riscos externos: conflito no Médio Oriente, seca na UE e política monetária do BCE.
- Estruturas internas: mercado de trabalho forte, utilização de poupanças das famílias e limites demográficos ao crescimento.
Em suma, o CFP reconhece a capacidade da economia portuguesa de resistir a choques recentes, mas sublinha que a trajectória futura permanece condicionada por factores externos e por limites estruturais internos, nomeadamente demográficos. A evolução do investimento público e a gestão das vulnerabilidades externas serão decisivas para a consolidação do crescimento nos próximos anos.