A Agência Internacional da Energia (AIE) reviu em baixa as suas estimativas para a oferta e a procura mundiais de petróleo para o resto de 2026, justificando a alteração com os impactos da crise no Médio Oriente sobre reservas e tráfego marítimo. No relatório mensal sobre o mercado do petróleo, divulgado esta quarta‑feira, a organização descreve uma queda significativa das reservas e um aumento dos riscos que continuam a pesar sobre o equilíbrio do mercado.
Reservas e rotas comerciais afetadas
Em julho, a crise reduziu as reservas globais em 69 milhões de barris, deixando os stocks abaixo dos 7.900 milhões de barris («7.900 mb») — um nível que não se via desde abril de 2025. A AIE sublinha a necessidade de «garantir que esta via estratégica seja reaberta o mais rapidamente possível», numa referência clara ao estreito de Ormuz, onde novos ataques voltaram a interromper o tráfego.
Apesar de um aumento da produção nos países do Golfo, os ataques e interrupções nas exportações conduziram a uma queda acentuada nos fluxos pela região.
- Produção dos países do Golfo Pérsico: subida de 2,5 milhões de barris por dia (mb/d), até 23,9 mb/d em julho.
- Exportações através do estreito de Ormuz: reduziram em 2,1 mb/d em julho, para uma média de 15 mb/d.
- Fluxo no mês: caíram de cerca de 20 mb/d no início do mês para cerca de 12 mb/d no final de julho.
Revisões às previsões e consequências para o mercado
A AIE cortou em 1,7 mb/d a sua previsão de oferta mundial para o terceiro trimestre, em comparação com a estimativa divulgada há um mês. No panorama anual, a agência projeta que, em média, serão colocados no mercado 102 mb/d durante 2026 — um valor inferior em 4,3 mb/d ao observado em 2025. Essa redução resulta, segundo o relatório, de perdas na produção do Médio Oriente que não são totalmente compensadas pelo crescimento esperado na produção das Américas (+1,4 mb/d).
O novo balanço aponta para um défice médio de 1,8 mb/d no terceiro trimestre — mais do que o dobro da estimativa que a AIE tinha anunciado em julho — o que pode exercer pressão adicional sobre os preços no curto prazo.
«Os riscos continuam a ser ‘substanciais’», escreve a AIE no relatório.
Perspetivas para final de 2026 e 2027
Apesar do agravamento a curto prazo, a agência mantém uma perspetiva de estabilização a partir do final de 2026. Para 2027, a AIE prevê um salto na oferta de 8,3 mb/d, que faria a produção atingir 110,3 mb/d, invertendo o atual desfasamento entre oferta e procura.
Por outro lado, a AIE revê igualmente em baixa as expectativas de procura: reduziu a previsão em 550.000 barris por dia face às estimativas de junho, atribuindo essa revisão, em parte, ao efeito dos preços elevados sobre a utilização do petróleo.
Implicações económicas
Uma combinação de reservas reduzidas, fluxos interrompidos e revisões em baixa da oferta cria um quadro de maior volatilidade para os preços do petróleo nas semanas e meses vindouros. Para economias dependentes de importações de energia, como a da União Europeia, oscilações acentuadas nos preços podem traduzir‑se em impactos diretos na inflação, nos custos industriais e nas contas externas.
O apelo da AIE para a reabertura das rotas estratégicas e o reconhecimento de riscos «substanciais» reforçam a necessidade de monitorização contínua do mercado pelos decisores políticos e pelos operadores do setor energético, à medida que se aproximam períodos-chave para o equilíbrio entre oferta e procura.
| Item | Valor |
|---|---|
| Redução de reservas em julho | 69 milhões de barris |
| Reservas totais (fim julho) | <7.900 mb |
| Produção dos países do Golfo (julho) | 23,9 mb/d |
| Redução das exportações via Ormuz (julho) | 2,1 mb/d |
| Previsão média de oferta para 2026 | 102 mb/d |
| Previsão de oferta para 2027 | 110,3 mb/d |
Em suma, o relatório da AIE coloca o sector petrolífero num momento de elevada incerteza, com efeitos que atravessam mercados e políticas energéticas. A evolução das tensões no Médio Oriente e a segurança das rotas marítimas serão determinantes para a trajectória dos preços e para a recuperação das reservas mundiais.