Peter Zalmayev, nascido em Donetsk e figura mediática antes da invasão russa, atravessa o chamado Sul Global numa iniciativa que descreve como uma «diplomacia sem credencial». Em viagem por dezenas de países para explicar a posição ucraniana, admite que «expulsar todas as forças russas» é hoje irrealista e sublinha que Moscovo ambiciona «toda a Ucrânia», segundo declarações recolhidas numa entrevista em que estava de férias na Madeira.
Um emissário não oficial que viaja com recursos próprios
Antigo apresentador de programas de atualidade na Ucrânia e presença regular em canais como CNN, BBC e Al Jazeera, Zalmayev tem vindo a percorrer o mundo como uma espécie de porta-voz não formal de Kiev. Já visitou 44 países — dos quais 22 em África — e descreve a iniciativa como financiada em grande parte pelas suas próprias poupanças. Afirma não falar em nome do Governo ucraniano nem receber fundos oficiais.
- 44 países visitados até ao momento;
- 22 desses em África;
- Viagem iniciada com um plano de 40 países e depois alargada.
No registo mais pessoal, a entrevista dá conta de uma mudança de imagem: a barba ganhou grisalhos, a roupa tornou-se mais colorida e juntaram-se colares e pulseiras trazidos de várias paragens. Mas o que se destaca é a estratégia comunicacional. Zalmayev diz procurar espaços que a diplomacia formal ucraniana, pela dimensão limitada da rede externa, não consegue cobrir, sobretudo em países onde Kiev ainda não dispõe de representação diplomática e onde Moscovo tem presença antiga e consolidada.
«Expulsar todas as forças russas» é hoje irrealista
Realismo estratégico e mensagem política
Ao reconhecer que uma retirada total das forças russas é, nas circunstâncias actuais, pouco provável, Zalmayev introduz uma leitura pragmática da guerra que contrasta com slogans maximalistas. Ao mesmo tempo, alerta para as ambições de Putin, que, disse, quer «toda a Ucrânia». Essa combinação — ceticismo quanto a objectivos finais imediatos e crítica ao expansionismo de Moscovo — estrutura a mensagem que procura levar a audiências fora do eixo ocidental.
Zalmayev também manifestou preocupação com a dependência de decisões governamentais externas e com a influência de lideranças estrangeiras sobre a sobrevivência de Kiev. Na entrevista, afirmou que a Ucrânia «não pode organizar a própria sobrevivência em torno do ‹capricho› de Donald Trump», uma referência explícita à importância das decisões políticas americanas para o futuro do país.
Implicações diplomáticas e geopolíticas
A iniciativa de Zalmayev levanta várias questões sobre a forma como a Ucrânia procura consolidar apoios fora do núcleo euro-atlântico:
- O Sul Global torna-se terreno de persuasão política, onde narrativas concorrentes sobre a guerra competem sem os mesmos condicionantes informativos que existem na Europa.
- A presença de interlocutores não estatais pode complementar, mas também sobrepor-se à diplomacia oficial, criando mensagens heterogéneas sobre objectivos e prioridades.
- A dependência de financiamento pessoal para este tipo de esforços expõe limites da capacidade do Estado ucraniano para projectar influência em mercados mediáticos e políticos distantes.
Para além do significado imediato da deslocação de um activista e comunicador, há um sinal mais amplo sobre a guerra na Ucrânia: a necessidade de ampliar canais de diálogo e de construir consensos fora dos fóruns tradicionais. Moscovo, com décadas de presença diplomática em várias regiões, terá vantagem estrutural nesses espaços; a resposta ucraniana, segundo este relato, passa por iniciativas individuais e redes informais.
O percurso de Zalmayev — das molduras televisivas e dos estúdios ocidentais para mercados e praças de países do Sul Global — espelha uma estratégia de comunicação adaptativa face a uma guerra que mudou não apenas fronteiras, mas também audiências. Resta ver até que ponto essas iniciativas privadas conseguirão influenciar decisões políticas e a percepção pública em capitais onde a concorrência informativa e diplomática é intensa.
| Indicador | Valor |
|---|---|
| Países visitados | 44 |
| Desses em África | 22 |
Em síntese, a experiência de Zalmayev sublinha o papel crescente de actores não estatais na diplomacia contemporânea e a necessidade de a Ucrânia diversificar canais de interlocução internacionais. O equilíbrio entre realismo estratégico e a procura de solidariedades externas será determinante nos próximos passos da sua acção e na forma como o conflito será compreendido além da órbita euro-atlântica.