Pesquisadores brasileiros documentaram pela primeira vez a presença de cervos-do-pantanal (Blastocerus dichotomus) com melanismo, condição que deixa a pelagem muito mais escura que o padrão castanho-avermelhado da espécie. O achado, resultado de monitoramento por drones e armadilhas fotográficas, foi publicado na revista científica Notas sobre Mamíferos Sudamericanos por pesquisadores da Onçafari e da Embrapa Pantanal.
Registros e locais
Foram documentados três exemplares: uma fêmea observada no Pantanal e dois machos no Cerrado. A fêmea foi registrada na região de atuação da base Caiman Pantanal, da Onçafari, no Mato Grosso do Sul. Os dois machos apareceram nos campos úmidos do Parque Nacional Grande Sertão Veredas, na divisa entre Minas Gerais e Bahia; esses indivíduos voltaram a ser observados durante o acompanhamento posterior. Após a publicação, um outro macho, mais jovem, também foi avistado no Cerrado.
“O Brasil tem muito a revelar. Mesmo um animal grande e vistoso como esse, que vive em áreas abertas, conseguiu passar despercebido por tanto tempo”, afirmou o biólogo Eduardo Fragoso, da Onçafari e um dos autores do estudo.
Método e evidências
O registro foi obtido por combinação de técnicas de monitoramento não invasivo: imagens captadas por drones complementaram dados de armadilhas fotográficas. Essa abordagem permitiu documentar a pelagem e o comportamento dos indivíduos em diferentes habitats, reduzindo a chance de erro de identificação que poderia resultar apenas de observações humanas esporádicas.
A publicação em periódico científico garante que as imagens e descrições foram avaliadas por pares da área, elevando o nível de confiabilidade do achado em relação a relatos tradicionais e testemunhos locais, que circulavam há décadas entre pescadores e moradores do Pantanal.
Contexto biológico e incertezas
O melanismo refere-se à produção excessiva de melanina e costuma estar associado a mutações genéticas. No entanto, a origem genética e a frequência dessa característica em Blastocerus dichotomus ainda não foram esclarecidas pelos autores do estudo. Em termos ecológicos, a pelagem muito escura pode ter vantagens ou desvantagens dependendo do ambiente — por exemplo, a cor escura absorve mais calor, o que pode ser prejudicial em áreas abertas e quentes.
Walfrido Tomas, especialista em cervos e pesquisador da Embrapa Pantanal, destacou o impacto visual da descoberta ao comentar a imponência desses animais, embora o documento não atribua conclusões definitivas sobre efeitos adaptativos ou seletivos do melanismo na espécie.
Implicações para conservação e pesquisa
A comprovação científica do melanismo em cervos-do-pantanal abre novas frentes de investigação e pode influenciar estratégias de conservação. Entre os pontos relevantes estão:
- Necessidade de estudos genéticos para identificar a base molecular do melanismo nessa espécie;
- Monitoramento ampliado para estimar a frequência dessa condição nas populações de Pantanal e Cerrado;
- Avaliação dos possíveis efeitos do fenótipo escuro sobre termorregulação, predação e sucesso reprodutivo.
| Local | Exemplares registrados |
|---|---|
| Pantanal (base Caiman Pantanal, MS) | 1 fêmea |
| Parque Nacional Grande Sertão Veredas (MG/BA) | 2 machos |
| Cerrado (registro posterior) | 1 macho jovem (avistamento posterior) |
O cervo-do-pantanal é a maior espécie de cervo do Brasil, capaz de alcançar até 1,30 metro de altura sem considerar a galhada dos machos. Por ser uma espécie conspícua e de grande porte, a descoberta de indivíduos melanísticos surpreende cientistas e reforça a necessidade de pesquisas sistemáticas em biomas amplos e variados.
O estudo põe fim a incertezas e lendas locais sobre o chamado "cervo preto" — topônimo presente, por exemplo, na toponímia de áreas do Pantanal, como uma baía próxima à Estação Ecológica Taiamã. Mas também levanta perguntas que somente investigações genéticas, ecológicas e comportamentais poderão responder.
Em resumo, além de encerrar um capítulo de mito e folclore regional, o registro científico cria uma nova agenda para pesquisadores e conservacionistas interessados na história natural e na diversidade fenotípica das grandes espécies brasileiras.