A 17ª sessão da Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (COP17/UNCCD), iniciada em 17 de agosto em Ulan Bator, Mongólia, abre uma janela de oportunidade para o Brasil elevar a restauração e a conservação do Cerrado ao centro das negociações internacionais sobre degradação de terras, seca e crise climática. A reunião, que vai até 28 de agosto, reúne os 197 países signatários da convenção e tem como tema “Restaurando a Terra, Restaurando a Esperança”.
Por que o Cerrado importa para o Brasil e o mundo
O Cerrado é apontado como um dos biomas mais relevantes do país por sua diversidade ecológica e função hidrográfica. Presente em 11 estados e no Distrito Federal, o território concentra nascentes de oito das 12 maiores regiões hidrográficas do Brasil. Além disso, abriga cerca de 30% das espécies brasileiras e contribui com aproximadamente 5% da biodiversidade mundial.
Do ponto de vista humano, cerca de 28 milhões de habitantes dependem direta ou indiretamente dos recursos do bioma, incluindo cerca de 80 povos indígenas e numerosas comunidades tradicionais. Esses números demonstram que as transformações no Cerrado repercutem além de suas fronteiras, influenciando outros biomas como Amazônia e Pantanal, e têm consequências para a segurança hídrica e a estabilidade climática do país.
Temas em pauta na COP17 e impactos para o Brasil
Entre os principais eixos de debate em Ulan Bator estão a restauração e conservação de ecossistemas, sistemas alimentares, mecanismos de financiamento e a transição para modelos produtivos mais sustentáveis. Essas agendas podem nortear políticas públicas e direcionar recursos internacionais e nacionais para ações de recuperação do Cerrado.
- Restauração: priorizar áreas degradadas que sustentam nascentes e áreas de recarga hídrica.
- Conservação: proteger remanescentes de vegetação nativa que mantêm biodiversidade e serviços ecossistêmicos.
- Sistemas alimentares: articular produção agrícola com práticas que reduzam pressão sobre áreas naturais.
- Financiamento: buscar instrumentos que atendam demandas de pequenos produtores e povos tradicionais.
Perdas históricas e desafios de recuperação
Apesar de sua importância, o Cerrado já perdeu cerca de metade de sua área original, sobretudo devido à expansão de pastagens e da agricultura, com destaque para a soja. A redução da cobertura natural compromete a capacidade de regulação hídrica e a oferta de serviços ecossistêmicos essenciais.
Recuperar e conservar o bioma exige políticas integradas que considerem a diversidade social e ambiental do Cerrado: desde incentivos à conservação em grandes propriedades até apoio técnico e financeiro a comunidades tradicionais e povos indígenas. A articulação entre políticas climáticas, de uso da terra e de apoio à agricultura será determinante para evitar novas perdas.
O papel do Brasil nas negociações internacionais
Participar ativamente da COP17 coloca o Brasil em posição de influenciar a agenda global sobre desertificação e restauração de terras, sobretudo ao destacar a relevância de biomas tropicais como o Cerrado. Para que a presença brasileira resulte em avanços concretos, será necessário traduzir compromissos internacionais em medidas e planos nacionais financiáveis e capazes de conciliar produção e conservação.
| Indicador | Valor |
|---|---|
| Países na UNCCD | 197 |
| Duração da COP17 | 17 a 28 de agosto |
| Estados com Cerrado | 11 + DF |
| Percentual da biodiversidade brasileira no Cerrado | ~30% |
| População dependente | 28 milhões |
Os debates na Mongólia podem abrir linhas de financiamento e cooperação técnica para ações de restauração no Brasil, mas a efetividade dependerá de políticas internas claras e da capacidade de implementação em nível local. A urgência é alta: sem mudanças de base nos sistemas de uso da terra, a perda de biodiversidade, a escassez hídrica e a vulnerabilidade climática tendem a se agravar.
Cobrir a COP17 e acompanhar como o Brasil irá transformar acordos internacionais em resultados concretos para o Cerrado será determinante nos próximos meses, especialmente para comunidades locais, povos indígenas e para a segurança hídrica de grande parte do país.