Em meio à campanha eleitoral, mulheres candidatas relatam em Minas Gerais e em outras unidades da Federação um aumento de ameaças e ataques com motivação de gênero, e afirmam que os órgãos encarregados de prover proteção ainda não estão preparados para lidar com esse tipo de violência. O problema ganha contornos de urgência por ocorrer num estado que, em números absolutos, aparece entre os que mais registram homicídios de mulheres no país.
Reclamações sobre respostas institucionais
Deputadas e postulantes denunciaram, nas primeiras semanas de setembro, ameaças de morte, mensagens com conteúdo racista e até intenção de práticas sexuais violentas. A deputada estadual Bella Gonçalves (PT-MG), que disputa vaga para a Câmara dos Deputados, afirmou que as instâncias responsáveis pelo amparo às candidatas não estão preparadas para enfrentar a violência política de gênero. Segundo ela, a violência política acompanha a violência de gênero, e isso explicaria a frequência dos ataques a mulheres em Minas Gerais.
“A violência no Brasil [contra as mulheres] nunca parou; na verdade, ela está em crescimento”,
O diagnóstico sobre insuficiência de proteção inclui relatos de dificuldade para obter medidas protetivas, apoio institucional e recursos para segurança pessoal. Uma das candidatas disse ter registrado boletim de ocorrência após receber mensagens com ódio racial e ameaças de morte e violência sexual, mas relatou não ter conseguido medidas efetivas de proteção e apontou a falta de recursos financeiros para garantir segurança privada.
Casos divulgados nas últimas semanas
Além de relatos em Minas, episódios recentes em outras regiões mostram como a violência política de gênero cruza com violência policial e ataques a ativistas. No último fim de semana, a suplente ao Senado e advogada Fernanda Klitzke (PT), em Jaraguá do Sul (SC), foi agredida por policiais militares durante uma ocorrência relacionada a som alto; ela sofreu chutes e foi atingida por balas de borracha.
No entorno de Belo Horizonte, a deputada federal Duda Salabert (PSOL-MG) denunciou agressões durante fiscalização de mineração ilegal na divisa com o município de Nova Lima, seguida por uma tentativa de homicídio, segundo o registro público da parlamentar. A deputada estadual Andréia de Jesus (PT) também relatou ter recebido ameaças com conteúdo racista por mensagem eletrônica.
| Candidata | Ocorrência | Resposta registrada |
|---|---|---|
| Bella Gonçalves (PT‑MG) | Ameaças de morte e estupro; crítica à falta de amparo institucional | Denúncia pública e pedidos por maior proteção |
| Andréia de Jesus (PT) | Mensagens com conteúdo racista e ameaça de morte | Divulgação em redes sociais |
| Ana Elisa Santos Silva (PT) | Boletim de Ocorrência por mensagens de ódio racista e ameaças | Registro policial |
Impactos na campanha e no ambiente democrático
Especialistas e as próprias candidatas apontam que a intimidação tem efeito prático sobre a participação política: cria sensação de insegurança, limita a circulação em atividades de campanha e pode desestimular mulheres a disputar mandatos. Em um estado com elevado número absoluto de homicídios de mulheres, a combinação entre violência de gênero e perseguição política amplia riscos para a integridade física e a livre manifestação política.
- Denúncias registradas: boletins de ocorrência e exposição em redes sociais por candidatas do PT e do PSOL.
- Formas de agressão: ameaças de morte, mensagens racistas, ofensas com conteúdo sexual e agressões físicas em operações policiais.
- Pontos de tensão institucional: alegada insuficiência de medidas protetivas e resposta por parte de Justiça Eleitoral, Polícia Federal e segurança pública.
Os relatos recolhidos indicam que, além da denúncia pública, muitas candidatas aguardam providências formais por parte das instituições. A urgência apontada por elas envolve tanto atuação preventiva — com proteção efetiva durante a campanha — quanto mecanismos de investigação e responsabilização quando os crimes ocorrem.
Próximos passos e demandas
Organizações de defesa dos direitos da mulher e de promoção da igualdade racial têm acompanhado as ocorrências e cobrado medidas coordenadas das autoridades eleitorais e de segurança pública. Entre as demandas previstas estão maior agilidade na concessão de medidas protetivas, atuação integrada entre tribunais eleitorais e forças policiais e campanhas educativas sobre violência política de gênero.
Enquanto isso, candidatas seguem documentando ameaças e pedindo à sociedade visibilidade para um problema que, segundo seus relatos, combina violência tradicional de gênero com ataque à participação política feminina. Em Minas Gerais, a convergência dessas duas dimensões reforça a necessidade de respostas institucionais robustas para garantir segurança e igualdade no processo eleitoral.