A associação ambientalista Quercus divulgou resultados de uma análise laboratorial à água da albufeira da barragem de Santa Águeda/Marateca, em Castelo Branco, concluindo que não encontrou indícios de contaminação relevante nos parâmetros estudados, mas sublinhando a necessidade de monitorização contínua.
Metodologia e resultados principais
As amostras foram recolhidas em 29 de junho em três pontos distintos da albufeira e enviadas a um laboratório francês com acreditação independente. Foram avaliados 842 itens, abrangendo substâncias persistentes («PFAS»), metais pesados, nutrientes e pesticidas.
| Parâmetro | Resultado (resumo) |
|---|---|
| Metais (ex.: cádmio, chumbo, mercúrio) | Valores dentro do normal |
| Nitratos, nitritos, fósforo total dissolvido | Valores dentro do normal |
| PFAS e pesticidas (glifosato, glufosinato, ditiocarbamatos, paraquato, diquato, etc.) | Não detetados; abaixo do limite de quantificação |
| TFA (trifluoroacético) | 0,73 µg/L — considerado preocupante e a exigir vigilância |
Interpretação e cautelas apontadas pela Quercus
A Quercus realça que, apesar dos resultados gerais serem tranquilizadores quanto a muitos parâmetros, existe um motivo de atenção: o TFA foi encontrado a uma concentração de 0,73 µg/L. Segundo a associação, tal valor «não constitui uma situação de risco imediato», mas recomenda que seja acompanhado de forma continuada.
«Apenas o TFA, com uma concentração de 0,73 µg/L (microgramas por litro) é preocupante. Apesar de não constituir uma situação de risco imediato, deve ser monitorizado.»
A Quercus sublinha ainda que as suas análises são muito mais abrangentes do que as que habitualmente são realizadas pelas autoridades — cerca de 842 itens versus as cerca de 60 parâmetros avaliados em monitorizações oficiais — e que uma análise pontual é insuficiente para caracterizar plenamente um sistema complexo como uma albufeira.
Contexto local e histórico
A albufeira da barragem de Santa Águeda abastece o consumo humano em quatro concelhos: Castelo Branco, Idanha‑a‑Nova, Vila Velha de Ródão e Fundão. Em 2022, a retirada de milhares de peixes mortos nessa albufeira suscitou preocupações públicas sobre a qualidade da água. Na altura, o município de Castelo Branco e a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) intervieram: o município garantiu que as análises então efetuadas asseguravam qualidade para consumo humano, e a APA reforçou ações de fiscalização e monitorização.
A Quercus mantém reservas quanto à existência de pomares intensivos nas proximidades — nomeadamente pomares de pêssego e cereja — que, segundo a associação, constituem «uma fonte muito provável de contaminação por pesticidas». A associação também aponta que herbicidas e fungicidas costumam ser aplicados em março e abril, pelo que uma recolha efetuada no final de junho poderá não detectar resíduos cujo tempo de persistência é reduzido.
Implicações e pedidos
- A Quercus exige monitorização continuada e mais abrangente para obter um quadro fidedigno e temporalmente representativo da qualidade da água.
- A persistência de pomares intensivos junto à zona de proteção da albufeira é referida como factor que justifica vigilância reforçada.
- As entidades públicas que asseguram o abastecimento deverão manter transparência e divulgação dos programas de monitorização, para reforçar a confiança pública.
Os resultados agora divulgados oferecem um quadro parcial mas tranquilizador em vários parâmetros-chave, ao mesmo tempo que deixam em evidência a necessidade de programas de vigilância que capturem variação temporal e eventos pontuais. Para as populações abastecidas por Santa Águeda — e para os responsáveis pelo planeamento e ordenamento rural — a mensagem central é a da prudência: a qualidade da água parece assegurada pelos parâmetros medidos, mas o acompanhamento contínuo é essencial para antecipar riscos e proteger o recurso hídrico.