Feirantes e representantes do Instituto Ver‑o‑Peso entregam, na manhã desta terça‑feira (11), ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) um pedido para que o complexo seja reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. A cerimônia está marcada para as 9h, no Mercado Bolonha, em Belém.
Reconhecimento que amplia proteção
O protocolo busca ampliar o reconhecimento federal que o Ver‑o‑Peso já possui como bem material desde o tombamento de 1977, estendendo a salvaguarda às práticas, saberes e modos de vida que se reproduzem diariamente no mercado e nas feiras às margens da Baía do Guajará. A iniciativa coloca em foco não apenas as construções físicas, mas as rotinas, técnicas de comércio e conhecimentos sobre produtos, essenciais para a manutenção da identidade local.
Segundo o Instituto Ver‑o‑Peso, o pedido visa registrar no Livro de Lugares Referência do Patrimônio Imaterial da Cultura do Brasil elementos intangíveis vinculados ao complexo, entre eles os saberes dos feirantes, as formas tradicionais de comercialização, costumes e manifestações culturais.
Por que importa para a Amazônia
O Ver‑o‑Peso é um dos símbolos de Belém e concentra atividades que articulam natureza, alimentação e cultura: ervas, peixes, frutas, ingredientes regionais e manifestações populares circulam no espaço. O reconhecimento como patrimônio imaterial permitiria medidas de salvaguarda dirigidas às pessoas e às práticas, complementando a proteção já existente sobre o conjunto arquitetônico.
Para comunidades e trabalhadores do mercado, esse tipo de registro pode favorecer políticas públicas de preservação cultural, programas de capacitação e instrumentos de fomento que valorizem cadeias produtivas tradicionais e o turismo cultural responsável.
O que está em jogo
Entre os elementos que o pedido pretende proteger estão:
- Saberes dos feirantes — conhecimento sobre produtos amazônicos, uso de ervas e plantas medicinais;
- Práticas comerciais tradicionais — modos de venda, negociação e transmissão intergeracional de técnicas;
- Manifestações culturais — rituais, festas e expressões populares vinculadas ao cotidiano do complexo.
O tombamento federal de 1977 assegurou a conservação do conjunto arquitetônico e urbanístico; o novo pedido pretende complementar essa proteção, preservando os elementos imateriais que dão vida ao Ver‑o‑Peso.
Etapas e efeitos práticos
O processo protocolado no Iphan seguirá a tramitação interna do instituto, que avalia documentos, estudos e depoimentos que fundamentem o reconhecimento como patrimônio imaterial. Se aprovado, o registro pode orientar políticas de salvaguarda e proporcionar instrumentos legais e técnicos para manter vivas as práticas catalogadas.
| Marcos | Data / Informação |
|---|---|
| Tombamento material | 1977 — reconhecimento do conjunto arquitetônico pelo Iphan |
| Entrega do pedido | 11 de agosto de 2026 — protocolo no Mercado Bolonha, Belém (9h) |
O avanço de um reconhecimento imaterial não altera a paisagem física por si só, mas cria um arcabouço para ações comunitárias, programas educativos e linhas de financiamento que possam favorecer a manutenção das tradições. Em contextos urbanos e ribeirinhos da Amazônia, onde saberes tradicionais sustentam economia familiar e segurança alimentar, essa proteção ganha dimensão estratégica.
A voz dos territórios
Iniciativas desse tipo, quando nascem das próprias comunidades — como é o caso do pedido liderado por feirantes e pelo Instituto Ver‑o‑Peso —, reforçam o protagonismo local nas decisões sobre memória e futuro. A preservação das práticas comerciais e dos saberes não é apenas uma questão de turismo ou imagem: é garantia de visibilidade e respeito ao modo de vida de gerações que ligam floresta, água e cidade.
Com a entrega do dossiê ao Iphan, começa uma nova etapa de diálogo entre instituições públicas e os protagonistas do mercado. A tentativa de registrar o Ver‑o‑Peso como Patrimônio Cultural Imaterial é também um chamado para que políticas públicas na Amazônia considerem a dimensão cultural como elemento central da preservação ambiental e do desenvolvimento sustentável.
Belém acompanha hoje um passo importante para salvaguardar práticas que são, ao mesmo tempo, expressão cultural e forma de resistência econômica e social na Amazônia paraense.