Faleceu em Belém, aos 91 anos, a ex-deputada federal Lúcia Daltro Viveiros, reconhecida como a primeira mulher eleita deputada federal pelo Pará. A morte ocorreu na segunda-feira (11), conforme comunicado divulgado pela família. Lúcia exerceu dois mandatos na Câmara dos Deputados, entre 1979 e 1987, deixando um legado institucional e simbólico para a participação feminina na política do estado.
Trajetória profissional e pioneirismo
Nascida em Belém, Lúcia formou-se em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Pará (UFPA) em 1958 e, posteriormente, em Arquitetura, em 1966. Ao longo da carreira, atuou como professora universitária, comunicadora e servidora pública. Entre 1956 e 1987, manteve atuação na comunicação, apresentando programas de rádio voltados principalmente ao público feminino e participando também de programas de televisão.
Na política, sua eleição em 1978 marcou uma ruptura em ambientes então fortemente masculinizados. Além de ser a primeira mulher eleita deputada federal pelo Pará, Lúcia foi a primeira mulher a integrar a Mesa Diretora da Câmara dos Deputados, como suplente de secretário, e presidiu uma sessão da Câmara, outro marco histórico.
Compromisso social e organizações
Ao longo da vida pública, Lúcia participou de iniciativas sociais e fundou a Legião da Mulher Paraense, organização que reforça seu compromisso com o engajamento feminino em espaços profissionais e comunitários. Sua família também ressaltou a atuação para além dos cargos, lembrando-a como mãe, avó e mulher presente na vida familiar.
“Lúcia viveu uma vida de presença”, afirmou a família, que também destacou: “Para sua família, ficam as lembranças da mãe, da avó e da mulher forte que existia para além de todos os títulos”.
O gesto simbólico e os limites enfrentados
Um episódio frequentemente recordado por sua família ilustra o caráter simbólico de sua presença: Lúcia foi a primeira mulher a entrar no plenário da Câmara dos Deputados usando calças compridas, gesto que ocorria em um contexto no qual a presença feminina em espaços políticos ainda enfrentava restrições e normas informais de conduta e vestimenta.
Esses episódios ajudam a situar o significado da trajetória de Lúcia no contexto da luta por maior participação política e igualdade de direitos para as mulheres no Brasil, especialmente na Amazônia, onde barreiras geográficas, sociais e culturais historicamente ampliam desafios de acesso ao poder político.
Repercussão institucional
A Assembleia Legislativa do Estado do Pará (Alepa) divulgou nota de pesar, classificando Lúcia como pioneira na política paraense e destacando sua atuação na Mesa Diretora da Câmara. A nota institucional sublinha o caráter histórico da trajetória e a relevância de sua representação para as mulheres do estado.
Dados e marcos da carreira
| Marco | Ano |
|---|---|
| Formação em Engenharia Civil (UFPA) | 1958 |
| Formação em Arquitetura | 1966 |
| Atuação na comunicação (rádio e TV) | 1956–1987 |
| Eleita deputada federal | 1978 (mandato 1979–1983) |
| Segundo mandato na Câmara | 1983–1987 |
Legado local e impacto paraenses
O falecimento de Lúcia Viveiros é sentido como uma perda para o tecido político e social do Pará. Seu percurso combina formação técnica, atuação docente, trabalho na comunicação e participação parlamentar — um perfil que dialoga com a diversidade de papéis assumidos por mulheres na Amazônia que articulam saberes profissionais e engajamento comunitário.
- Referência histórica: primeira mulher eleita como deputada federal pelo Pará.
- Marco institucional: primeira mulher na Mesa Diretora da Câmara dos Deputados (suplente de secretário).
- Atuação pública: presença na comunicação e em iniciativas sociais voltadas às mulheres.
Em tempos nos quais a representação feminina segue sendo debatida nas esferas local e nacional, a trajetória de Lúcia Viveiros reafirma a importância de registrar e transmitir histórias de pioneiras que abriram espaço para as futuras gerações de mulheres na política do Pará e da Amazônia.
Informações sobre velório, homenagens públicas e sepultamento não foram divulgadas pela família no comunicado consultado pela reportagem.
Correspondente em Pará, cobertura comprometida com a Amazônia e seus povos.