O Espírito Santo registrou uma queda abrupta nas importações de automóveis em julho: US$ 57,8 milhões, ante US$ 1,448 bilhão em junho — redução de aproximadamente 96% —, segundo dados do Comex Stat compilados pelo Sindiex. O movimento está relacionado diretamente ao calendário de aumento das alíquotas do imposto de importação para veículos eletrificados, que atingiu o teto de 35% em 1º de julho.
Janela de estoque em junho pressionou volume mensal
Montadoras e importadores aproveitaram junho como última oportunidade para nacionalizar veículos com a alíquota antiga, antecipando a entrada em vigor da tarifa maior para elétricos e híbridos. No mês anterior, foram desembaraçados 76.887 automóveis de passageiros, o maior volume mensal já registrado no Estado, com cerca de US$ 1,2 bilhão das aquisições provenientes da China.
Com essa formação de estoque, a expectativa apontada por analistas do setor é de que as importações no segundo semestre operem em patamar moderado: sem repetir o pico de junho, mas também sem manter o nível quase nulo verificado em julho.
Portos da Grande Vitória mantêm força no semestre
Apesar do recuo pontual em julho, o primeiro semestre foi recorde para os terminais capixabas. A concessionária Vports, que administra os portos de Vitória, Vila Velha e Aracruz, movimentou 179 mil veículos entre janeiro e junho, alta de 51% em relação ao mesmo período de 2025. A China respondeu por 72% desse volume.
Os terminais de Vitória e Vila Velha concentram 53% de todas as importações brasileiras de automóveis, segundo a Vports — posição que reforça a importância da infraestrutura portuária capixaba para a cadeia automotiva nacional.
Panorama do semestre e participação do setor automotivo
No acumulado do semestre, o Espírito Santo importou 214.731 veículos, totalizando US$ 3,96 bilhões, valor que representou 44,6% da pauta de importação estadual. Se somados caminhões e veículos de uso especial, o peso do setor automotivo chega a 57,3%.
| Período | Valor (US$) | Veículos desembaraçados |
|---|---|---|
| Junho | 1,448 bilhão | 76.887 |
| Julho | 57,8 milhões | dados não discriminados |
| 1º semestre | 3,96 bilhões | 214.731 |
Tributação e regimes especiais
O cronograma de aumento das tarifas para carros eletrificados vem desde janeiro de 2024: a alíquota para elétricos puros saiu de 10% (jan/24) para 18% (jul/24), depois 25% (jul/25) e chegou a 35% em 1º de julho de 2026. Híbridos plug-in (PHEV) e híbridos convencionais (HEV) seguiram trilhas semelhantes até alcançar o mesmo teto.
Paralelamente, o governo federal reativou uma cota de importação com alíquota zero para veículos desmontados (CKD) e semidesmontados (SKD) no valor de US$ 463 milhões, válida até 31 de dezembro. Acima desse limite, o semidesmontado sofrerá a alíquota de 35% e o desmontado ficará em 14% até o fim do ano. Em 1º de janeiro de 2027, ambos os regimes passarão a 35%.
Impactos locais e implicações para o setor
O recuo de julho afeta diferentes elos da cadeia logística e comercial no Espírito Santo. Entre os efeitos esperados estão:
- Redução temporária de volumes nos terminais portuários após o pico de junho;
- Adequação dos estoques de concessionárias e distribuidores aos carros já nacionalizados com alíquota antiga;
- Possível pressão sobre a oferta e preços de modelos eletrificados, dependendo da velocidade de recomposição de importações;
- Reordenação das estratégias de importadoras quanto a regimes CKD/SKD e ao aproveitamento de cotas.
Para o agronegócio e para o setor exportador capixaba, a movimentação dos portos segue sendo estratégica: a infraestrutura que concentra a maior parte das importações de veículos do país também atende cargas diversas fundamentais para a economia do interior do Estado. Assim, oscilações pontuais em importações automotivas não necessariamente refletem redução estrutural na demanda por serviços portuários, mas exigem ajustes operacionais e de planejamento.
Com o estoque formado em junho, a recomendação de analistas e operadores é acompanhar atentamente a evolução da demanda interna e os próximos passos da política tarifária, além de monitorar a utilização das cotas CKD/SKD até o fim do ano.
O Espírito Santo segue com papel central na logística automotiva nacional, enquanto o mercado se adapta ao novo patamar de tributação e às condições comerciais internacionais.