Um projeto-piloto implementado no Norte do Espírito Santo passa a avaliar neste ano o uso do gás natural na secagem de grãos de café, como alternativa às fornalhas que queimam lenha e outras biomassas. A experiência, desenvolvida inicialmente na Fazenda Chapadão, em Linhares, recebeu R$ 1 milhão para a primeira etapa e tem como objetivo medir custos, eficiência operacional e possíveis efeitos sobre qualidade, rastreabilidade e sustentabilidade do produto.
Parceiros e metodologia do piloto
A iniciativa é capitaneada pela concessionária ES Gás, que também é uma das controladoras do projeto. Outros participantes incluem o Centro do Comércio de Café de Vitória (CCCV), o Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), a empresa JDE Peet's e a consultoria Base 27, com acompanhamento e aprovação da Agência de Regulação de Serviços Públicos do Espírito Santo (ARSP).
Nas operações realizadas durante a safra na fazenda de conilon do cafeicultor Eduardo Bortolini, o sistema funcionou com três queimadores distintos para avaliar equipamentos e configurações diversas. Segundo os organizadores, a intenção foi comparar consumo, controle térmico e outros indicadores operacionalmente relevantes.
Controle térmico e logística: pontos de atenção
Entre os aspectos observados pelos técnicos, o controle da temperatura foi apontado como central para a avaliação. Fabio Lancelotti, diretor técnico comercial da ES Gás, ressaltou que o uso do gás possibilitou um ajuste da chama mais preciso.
"No caso da fornalha, o cafeicultor fica dependente de mais funcionários dedicados ao acompanhamento da queima, além de depender da logística de entrega e reposição da lenha."
Essa observação destaca duas frentes onde o gás natural pode influir: a redução da necessidade de mão de obra para manejo da queima e a descompressão da logística de reposição de combustível, frequentemente onerosa e sujeita a variabilidade local.
Resultados preliminares e próximos passos
Os dados coletados na primeira etapa ainda estão sob análise. Parte dos primeiros resultados foi apresentada durante o Vitória Coffee Summit 2026, evento que reuniu agentes do setor em Vitória. A expectativa dos coordenadores é ampliar o modelo para outras propriedades na próxima safra, dependendo da validação técnica e econômica dos indicadores.
Impactos potenciais para produtores e cadeias locais
Se confirmado como viável, o uso de gás natural na secagem pode gerar repercussões no conjunto do agronegócio capixaba. Entre os possíveis efeitos estão:
- Maior precisão no processo de secagem, com controle de temperatura mais estável;
- Alteração na demanda por mão de obra nos terreiros e secadores;
- Redução da pressão sobre recursos florestais locais usados como lenha;
- Necessidade de infraestrutura de distribuição de gás canalizado nas propriedades;
- Implicações na rastreabilidade e comercialização, caso mudanças na qualidade ou custo sejam significativas.
Tabela: participantes e papéis no piloto
| Instituição | Atuação no projeto |
|---|---|
| ES Gás | Controladora e fornecimento do gás / coordenação técnica |
| CCCV | Interface com o comércio do café em Vitória |
| Ifes | Pesquisa e apoio técnico |
| JDE Peet's | Participação e interesse industrial |
| Base 27 | Consultoria e apoio técnico |
| ARSP | Aprovação e acompanhamento regulatório |
Contexto regional e considerações finais
O Espírito Santo é um importante produtor de conilon, variedade que sustenta parte significativa da economia rural no Norte do Estado e movimenta cadeias que chegam ao porto e às indústrias de torrefação e exportação. Alternativas energéticas viáveis para etapas como a secagem podem ter efeito multiplicador: menores custos logísticos e ganhos de eficiência tornam-se relevantes para propriedades de diferentes portes e para o escoamento via terminais portuários capixabas.
Os resultados finais do piloto serão determinantes para decidir se o modelo de secagem a gás natural será ampliado em escala regional. Enquanto isso, os produtores interessados devem acompanhar a divulgação técnica do projeto e a análise dos milhares de dados coletados nesta etapa para avaliar adaptações envolvendo infraestrutura, custos e retorno operacional.
O acompanhamento seguirá sendo realizado por órgãos e entidades locais, e novas informações serão divulgadas à medida que a segunda fase do projeto for planejada e financiada.