O senador e candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, afirmou nesta segunda-feira, 19, em Marabá, no sudeste do Pará, que pretende "acabar com entraves ambientais" e realizar a que chamou de "maior regularização fundiária" na história do estado. O pronunciamento ocorreu durante uma motocarreata que reuniu apoiadores na cidade.
Promessa de regularização e discurso sobre propriedade
No evento, o candidato destacou o compromisso com a titularidade da terra no papel e com a proteção da propriedade privada, segundo seu discurso. Ele afirmou que os proprietários terão liberdade para explorar suas áreas — plantar, criar gado e desenvolver atividades econômicas — sem os obstáculos que, em sua avaliação, hoje são impostos por motivações ideológicas.
"Vou fazer a maior regularização fundiária que o Pará já viu. Sua terra vai ser sua no papel. Vamos respeitar a propriedade privada. Você vai poder plantar, criar gado, fazer o que quiser na sua terra, e o que você explorar da terra é seu. Esses entraves ambientais que existem, principalmente por causa de razões ideológicas, nós vamos acabar".
As declarações foram proferidas durante a carreata, evento típico de campanha que reuniu apoiadores locais. No pronunciamento, o senador também criticou o atual presidente e candidato, atribuindo-lhe um comportamento de vingança, e afirmou que, caso Lula seja reeleito, haveria retaliação ao Pará por escolhas políticas no pleito estadual — uma referência ao resultado da disputa pelo governo do estado.
Contexto eleitoral e resultados no Pará
O discurso de Flávio ocorreu em um contexto eleitoral local marcado por resultados divididos: na disputa pelo governo do Pará, Dr. Daniel (Podemos) foi eleito com 51,36% dos votos válidos, contra 46,53% de Hana Ghassan (MDB). Já na corrida presidencial, de acordo com os números citados por sua campanha, o presidente Lula (PT) obteve 49,91% dos votos válidos no estado, ante 44,5% de Flávio Bolsonaro.
| Eleição | Candidato / Resultado no Pará |
|---|---|
| Governo do Pará | Dr. Daniel (51,36%) — Hana Ghassan (46,53%) |
| Presidencial (Pará) | Lula (49,91%) — Flávio Bolsonaro (44,5%) |
Impactos e preocupação local
Promessas de "regularização fundiária" e de supressão de entraves ambientais têm efeitos diretos sobre a dinâmica territorial no Pará, estado em que a ocupação da terra está entrelaçada com atividades como agricultura, pecuária e mineração, além da presença de povos tradicionais e comunidades rurais. Mudanças nas regras de regularização e no regime de proteção ambiental podem alterar direitos de uso, estratégias de manejo e o futuro de áreas florestais.
Para populações tradicionais, ribeirinhas e indígenas, medidas de flexibilização ambiental costumam ser encaradas com preocupação, pois historicamente políticas de regularização e titulação nem sempre distinguem posse tradicional de propriedade privada formal. A promessa de que "o que você explorar da terra é seu" — repetida no palanque — sugere uma visão de exploração territorial que conflita com modelos de uso sustentável e proteção de áreas sensíveis.
- Quem pode ser afetado: pequenos agricultores, criadores, comunidades tradicionais, povos indígenas e assentados.
- Principais tensões: propriedade privada versus uso coletivo; regularização fundiária versus proteção ambiental.
- Consequências possíveis: mudança no acesso a terras; incremento de atividades agropecuárias e minerárias; riscos a unidades de conservação e mosaicos territoriais.
O que está em jogo na Amazônia
O Pará é um dos estados que articula economia regional e conservação ambiental em um território onde decisões sobre terra reverberam para além das fronteiras locais: afetam serviços ecossistêmicos, clima e biodiversidade. Qualquer alteração nas políticas de regularização e nos mecanismos de controle ambiental será acompanhada de perto por órgãos ambientais, movimentos sociais e comunidades afetadas.
Nas próximas semanas, à medida que a campanha avança, o teor das propostas e a forma como serão detalhadas — inclusive com indicações de políticas públicas e de dispositivos legais — determinarão a reação de atores locais e nacionais. Para moradores de Marabá e de outras cidades do sudeste paraense, a promessa de titularidade pode representar, na prática, soluções para insegurança fundiária; para outros, pode significar maior pressão sobre florestas e territórios tradicionais.
Coube ao evento em Marabá reafirmar o posicionamento do candidato sobre questões centrais ao futuro do estado: a prioridade dada à regularização e ao respeito à propriedade privada, e a promessa de enfrentar o que chamou de obstáculos ambientais de origem ideológica. A agenda proposta coloca a Amazônia e seus povos no centro do debate, sob tensão entre desenvolvimento econômico e proteção dos direitos territoriais e ambientais.