Amazônia em processo acelerado de transformação e risco sistêmico. Em palestra na Universidade Federal do Amapá, a ecóloga e membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC) Ima Vieira alertou para a combinação de fatores que aproxima partes do bioma de um limiar em que deixam de cumprir seu papel como sumidouro de carbono e passam a emitir mais carbono do que absorvem.
Dados recentes e a dimensão do problema
Na conferência “Ciência, Território e Florestas na Amazônia Ameaçada”, realizada durante o Simpósio e Diplomação dos Membros Afiliados da ABC da Região Norte 2026-2030, Vieira reuniu indicadores sobre mudança do uso da terra, incêndios, perda de biodiversidade e a fragilidade institucional que amplia a exposição do bioma a riscos.
| Indicador | Valor citado |
|---|---|
| Floresta original perdida | 18% |
| Perda na porção leste | 31% |
| Área de florestas degradadas em 2024 | 36.379 km² |
| Área queimada em 2024 | 15,6 milhões de hectares |
Risco sistêmico e causas humanas
Segundo a pesquisadora, o problema não é composto por uma única ameaça isolada, mas pela soma de fatores — aquecimento global e desmatamento acumulado — que elevam o risco de ponto de inflexão do ecossistema. Esses dois vetores principais são de origem antrópica, o que, na avaliação apresentada, deixa uma janela de ação para alterar a trajetória atual.
“A floresta não pode esperar. E a ciência feita na Amazônia tampouco.”
A fala reforça a urgência de intervenções coordenadas para reduzir emissões globais e conter o desmatamento regional. Sem ações integradas, parte da Amazônia pode transitar de estoque de carbono para fonte líquida, com consequências climáticas e ecológicas amplas.
Desafios para a pesquisa e a conservação
Além dos números alarmantes, Vieira destacou a insuficiência de conhecimento sobre extensas áreas da região. Grandes parcelas permanecem pouco estudadas, o que limita a capacidade de formular respostas científicas e políticas eficazes. A pesquisadora também ressaltou o papel dos territórios protegidos e dos saberes tradicionais na conservação da biodiversidade e na resiliência do ecossistema.
- Conhecimento limitado: muitas áreas da Amazônia são pouco conhecidas pela ciência, dificultando diagnósticos completos.
- Importância dos territórios protegidos: unidades de conservação e terras indígenas desempenham papel central na manutenção de funções ambientais.
- Fortalecimento institucional: pesquisa local e instituições científicas na Amazônia precisam de apoio para gerar soluções contextualizadas.
O balanço apresentado aponta, portanto, para duas frentes simultâneas: mitigar as pressões diretas sobre o uso da terra — desmatamento e queimadas — e ampliar a capacidade regional de produzir ciência e políticas públicas baseadas em evidências. Para isso, são essenciais investimentos em infraestrutura de pesquisa, formação de recursos humanos locais e integração entre ciência, gestão territorial e comunidades tradicionais.
Ao colocar a ciência amazônica no centro da discussão, a mensagem da conferência reforça que decisões tomadas hoje terão impacto direto sobre a estabilidade climática e sobre a manutenção dos serviços ecossistêmicos que beneficiam toda a sociedade brasileira e a comunidade internacional.
Os números e as análises expostos por Ima Vieira demandam resposta imediata das esferas governamentais, do setor científico e da sociedade civil para evitar que a soma de pressões transforme degradação localizada em ruptura sistêmica.