O Coletivo Força Popular, vinculado ao PT, anunciou uma proposta inédita para a eleição de 2026 no Tocantins: lançar uma candidatura coletiva para a Assembleia Legislativa, cuja titularidade formal ficaria com Milne Freitas Souza — conhecido como Freita — enquanto as decisões do mandato seriam partilhadas entre 20 integrantes do grupo.
Estrutura e regras internas
Segundo o coletivo, Freita assumiria o CPF titular da candidatura e atuaria como porta-voz institucional. Na prática, porém, o mandato não seria exercido de modo isolado pelo titular. O regulamento apresentado prevê que os demais 19 membros — definidos pelo grupo como "co-deputados" — tenham o mesmo peso político dentro das instâncias deliberativas do coletivo.
As normas internas desenham dois perfis de atuação entre os co-deputados: um grupo com foco temático e outro com perfil técnico. As demandas recebidas seriam encaminhadas e discutidas coletivamente, com prioridade para a busca de consenso. Quando o consenso não for alcançado, a decisão passará por votação com maioria absoluta, e divergências relevantes poderão ser levadas a plenárias do mandato.
Origem e inspiração do modelo
O movimento para uma candidatura compartilhada surgiu após as eleições internas do PT em 2025. Freita informou que, originalmente, não pretendia disputar um cargo eletivo novamente, mas aceitou concorrer mediante a condição de que a postulação fosse coletiva. O Coletivo Somos, que atua na Câmara de Palmas, é citado como fonte de inspiração para o formato de representação compartilhada.
Quem compõe o coletivo
O grupo é formado por lideranças e ativistas com perfis diversos, incluindo representantes de povos indígenas e profissionais de distintas áreas. A lista divulgada pelo coletivo inclui:
- Milne Freitas Souza (Freita) — titular/porta-voz
- Cacique Gercilha Krahô
- Gilda Rodrigues
- Veneranda Elias
- Joao Tabocão
- Luiz Garapa
- Curerrete Waritirre
- Dr Cleber Mota
- Osedi Pereira
- Poly Vieira
- Sandro Cardoso
- Alaide Carvalho
- Taffarel Sawaru
- Cacique Genildo Pankararu
- Maroca
- Francilene Rodrigues
- Cleudiane Silvino
- Helena Rodrigues
- Divina Herli
- Givanildo
| Função formal | Composição |
|---|---|
| Titular/porta-voz | Milne Freitas Souza (Freita) |
| Co-deputados | 19 membros com participação política equivalente |
O que muda para o eleitor e para o funcionamento do mandato
A proposta coloca em xeque regras não escritas da política representativa tradicional, nas quais uma única pessoa concentra poder decisório e visibilidade. Na prática, se a candidatura for eleita conforme o regulamento divulgado, o titular terá de adotar rotinas de deliberação interna para encaminhar votações, propor emendas e prestar contas com base nas decisões coletivas.
Para o eleitor, a alteração mais palpável é que o rosto formal do mandato será um, mas a atuação legislativa será resultado de articulação coletiva. Isso pode afetar a forma de comunicação com a base eleitoral, a priorização de projetos e o encaminhamento de emendas parlamentares — cuja destinação, segundo o coletivo, deverá refletir acordos internos.
Desafios jurídicos e práticos
Embora o modelo coletivo esteja em expansão em algumas experiências legislativas locais, ele enfrenta desafios práticos e jurídicos. A legislação eleitoral e os regimentos internos das Casas não prevêem mandato compartilhado na acepção de alternância formal de titularidade; a vaga, legalmente, pertence à pessoa inscrita. Dessa forma, a execução plena do modelo depende da forma como o titular exercerá a cadeira, do respeito ao regramento interno do coletivo e da transparência sobre quem toma quais decisões.
Contexto partidário e próximo calendário
O movimento acontece num contexto de disputa interna e reorganização do PT no estado após as eleições internas de 2025. Resta observar como a direção estadual e a militância local irão recepcionar a proposta durante o processo de escolha de candidaturas formais e como opositores e concorrentes interpretarão a iniciativa durante a campanha rumo a 2026.
O modelo anunciado pelo Coletivo Força Popular coloca em debate questões sobre representação, prestação de contas e mecanismos de controle dentro do processo legislativo. Se aprovado nas urnas, representaria um teste prático de alternativas à centralização do poder no mandato eletivo.