Dezenas de residentes de Portalegre percorreram, esta quinta‑feira, em silêncio e vestidos de branco, a distância que separa a Praça da República do Hospital de Portalegre para pedir a continuidade da actividade do médico que presta serviços na Unidade de Oncologia daquele estabelecimento.
Uma manifestação de rosto descoberto e lenço na lapela
Os manifestantes envergavam um lenço de cores rosa e azul na lapela e deslocaram‑se por mais de um quilómetro sem gritos nem pancartas ruidosas: a acção foi planeada como uma marcha silenciosa. A iniciativa foi promovida pelo grupo «Valorizar quem cuida», que explicou aos órgãos de comunicação social que o objectivo único era «valorizar o trabalho» do médico oncologista em causa.
Na origem do protesto estão preocupações de utentes e acompanhantes com uma alegada redução de horas desse profissional na Unidade de Oncologia. Segundo a promotora do protesto, Sónia Silva, doente oncológica, o médico realizava consultas em Portalegre «durante a semana, sábados e alguns domingos», mas atualmente «não vem a Portalegre» ao fim de semana.
«Estamos a lutar por uma causa, que é a permanência do dr. Rui Dinis no serviço de Oncologia e não a redução das horas que ele tem»
Agenda apertada e lista de espera
Sónia Silva disse ainda que o clínico presta consultas «um dia e meio por semana» e que, no momento da marcha, havia uma lista de espera de 350 doentes para a consulta de oncologia naquela unidade. A mesma fonte relatou tentativas de marcação de consulta sem disponibilidade imediata: «ontem tentei marcar consulta, não tinha agenda para outubro; hoje tentei marcar e o dr. Rui Dinis vem na terça‑feira dar consultas antes da consulta de decisão terapêutica e, depois, na sexta‑feira».
Foi também referido que a administração da Unidade Local de Saúde (ULS) do Alto Alentejo terá sugerido ao médico a realização de dois sábados para ajudar a reduzir a lista de espera, sem alteração da agenda de outubro em relação a sábados.
| Elemento | Descrição |
|---|---|
| Presença semanal do médico (relatada) | Um dia e meio por semana |
| Dias referidos com consultas | Terça‑feira (antes da consulta de decisão terapêutica) e sexta‑feira |
| Lista de espera | 350 doentes |
ULS recebe, promotores recusam encontro
À chegada ao hospital, o administrador da ULS do Alto Alentejo, Miguel Lopes, esteve na entrada para receber e reunir‑se com os manifestantes. Os promotores, contudo, recusaram o encontro, alegando que «não era o momento» para abordar a questão naquele local e horário, uma vez que existe «um compromisso» com a presidente da Câmara de Portalegre, Fermelinda Carvalho.
Segundo a organização, a autarca está «sensibilizada» para a situação e serve como ponte para um diálogo entre os utentes e a administração da ULS. Do lado dos promotores, há uma tentativa de preservar canais de negociação que envolvam a Câmara Municipal, em vez de uma confrontação imediata junto à administração.
Reivindicações e impactos locais
A marcha sublinha a fragilidade sentida por utentes oncológicos fora dos grandes centros hospitalares: a presença regular de um especialista e a disponibilidade de consultas ao fim de semana são apontadas como factores que aliviam listas de espera e evitam deslocações frequentes. A existência de uma lista de espera elevada e a limitação do tempo presencial do médico na cidade foram os motivos centrais que mobilizaram as pessoas que hoje caminharam pelas ruas de Portalegre.
- Protagonistas: grupo «Valorizar quem cuida», doente oncológica Sónia Silva, administrador da ULS Miguel Lopes, presidente da Câmara Fermelinda Carvalho.
- Reclamação principal: manutenção das horas do médico oncologista na Unidade de Oncologia de Portalegre.
- Dados citados: lista de espera de 350 doentes; agenda que inclui presença «um dia e meio por semana».
A marcha silenciosa, de tom reclamante mas sem confrontação aberta, revela a importância que a comunidade local atribui à continuidade dos cuidados especializados na cidade. Nos próximos dias, será determinante perceber se o compromisso invocado com a Câmara Municipal conduz a um encontro que esclareça as perspetivas de reforço da oferta de consultas e da gestão da lista de espera.