Mobilização silenciosa reclama continuidade de acompanhamento oncológico
Mais de duas centenas de utentes e residentes de Portalegre participaram, na quinta-feira, numa marcha silenciosa que saiu da Praça da República e terminou em frente ao Hospital de Portalegre, exigindo a manutenção do horário do médico oncologista Rui Dinis.
O protesto surge na sequência da reorganização do Serviço de Oncologia da Unidade Local de Saúde (ULS) do Alto Alentejo, que, a partir de 1 de outubro, passará a integrar três médicos: um oncologista residente — pela primeira vez na ULS — e dois prestadores de serviços, entre os quais se inclui o clínico que acompanha doentes na região há 16 anos.
Reivindicações e receios dos utentes
Os participantes, muitos vestidos de branco e com um lenço rosa e azul na lapela, percorreram pouco mais de um quilómetro em silêncio. Reclamavam contra aquilo que descrevem como uma redução já em curso do tempo de consulta e do número de consultas realizadas pelo médico em Portalegre, situação que, segundo os utentes, agravou a espera pelos cuidados.
- Lista de espera: os manifestantes referem uma lista de espera de cerca de 350 doentes oncológicos para consultas com Rui Dinis.
- Horário alegado: utentes dizem que o médico deixou de atender ao fim de semana e que as marcações para consultas estavam preenchidas para outubro.
- Reforço previsto: a administração anuncia a chegada de um médico residente que estará disponível cinco dias por semana, entre Portalegre e Elvas.
Para os manifestantes, essas alterações colocam em risco a continuidade do acompanhamento clínico e a proximidade do serviço desempenhada nos últimos anos. A presença de familiares, doentes e membros de grupos de apoio traduz a ansiedade de uma comunidade que invoca histórico de confiança num único profissional.
Reação da administração da ULS
À entrada do hospital, o presidente do conselho de administração da ULS do Alto Alentejo, Miguel Lopes, recebeu os protestantes e disse estar disponível para esclarecer o processo. A administração tem procurado garantir que a reorganização não reduzirá a assistência e que a continuidade do oncologista está salvaguardada.
«A continuidade do oncologista está salvaguardada, não está em causa a redução do horário de nenhum profissional», afirmou Miguel Lopes.
O responsável acrescentou que a entrada de um médico residente, com maior disponibilidade semanal, permitirá reforçar o serviço entre Portalegre e Elvas. Ainda assim, a explicação não convenceu um grupo de utentes que afirma já sentir, na prática, diminuição da disponibilidade do médico em consultas regulares.
Vozes locais e próximos passos
Entre os organizadores do protesto, o grupo «Valorizar quem cuida» tem sido porta-voz das preocupações. Sónia Silva, doente oncológica e integrante do movimento, afirmou que o objetivo da ação foi valorizar o trabalho do clínico e assegurar a sua permanência no serviço de Oncologia de Portalegre. A mesma ativista referiu dificuldades em marcar consultas e descreveu a situação de agenda como problemática.
| Elemento | Dados referidos |
|---|---|
| Manifestantes | Mais de duas centenas |
| Lista de espera | ~350 doentes (referência dos utentes) |
| Reorganização | Entrará em vigor a 1 de outubro: 1 residente + 2 prestadores |
A reunião pedida pela administração foi recusada pelos organizadores no local, que alegaram existir um compromisso de diálogo com a presidente da Câmara, Fermelinda Carvalho, que funciona como ponte entre os utentes e a ULS. O episódio deixa a cidade num clima de vigilância sobre os cuidados oncológicos locais: enquanto a ULS garante reforço do serviço, a população exige medidas concretas para reduzir listas de espera e assegurar a proximidade do acompanhamento que vinha sendo prestado.
Em Portalegre, a mobilização silenciosa ficou assim gravada como um apelo coletivo pela manutenção de um serviço hospitalar que, para muitos, representa mais do que consultas — é a continuidade do cuidado num território marcado pela dispersão geográfica e pela memória coletiva dos percursos de saúde.