Montemor‑o‑Novo será, no próximo 7 de setembro, uma das cidades portuguesas a receber as comemorações dos 70 anos de Grande Sertão: Veredas, a obra maior de João Guimarães Rosa publicada em 1956. A iniciativa integra uma programação que decorre até 11 de setembro e que passa ainda por Lisboa e Loulé.
Memória, voz e partilha do Sertão
A organização da iniciativa envolve várias instituições culturais e académicas, entre as quais a Fundação José Saramago, a Universidade do Algarve e as autarquias de Loulé e Montemor‑o‑Novo. Para as sessões em Portugal foram convidadas responsáveis pelo Museu Casa Guimarães Rosa, em Cordisburgo, e académicos brasileiros que trazem perspetivas diretas sobre a obra e o seu universo.
- Data em Montemor‑o‑Novo: 7 de setembro
- Período geral da iniciativa: até 11 de setembro
- Entidades organizadoras: Fundação José Saramago, Universidade do Algarve, autarquias de Loulé e Montemor‑o‑Novo
- Convidados confirmados vindos do Brasil: Dôra Guimarães, Tiago Goulart (Museu Casa Guimarães Rosa) e Diomira Faria (Universidade Federal de Minas Gerais)
O Sertão trazido a Montemor
A escolha de Montemor‑o‑Novo para integrar este ciclo de celebrações aproxima ao Alentejo um universo literário e cultural marcado por paisagens de secura, migração e religiosidade popular: o Sertão nordestino, pano de fundo de Grande Sertão: Veredas. A obra, que narra as aventuras dos jagunços Riobaldo e Diadorim e a vida de figuras do cangaço como Joca Ramiro e Zé Bebelo, é descrita como a história do Sertão — uma «terra de tanta pobreza», nas palavras de referência citadas na programação do evento.
«Isto aqui é uma terra terrível, seu doutor… Eu mesmo… O senhor me vê mansinho desse jeito, mas eu fui batizado com água quente».
Além das leituras do romance de Guimarães Rosa, a iniciativa promete ligar a obra a outras referências da literatura sertaneja e nordestina, lembrando autores que também trabalharam esse espaço literário, como Jorge Amado, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, entre outros mencionados na programação. Em Montemor‑o‑Novo essa memória literária pode encontrar ecos na paisagem alentejana, onde a memória das gentes e dos lugares é frequentemente invocada em tertúlias, saraus e ciclos culturais.
Participação brasileira e curadoria
Do lado brasileiro participam Dôra Guimarães e Tiago Goulart, do Museu Casa Guimarães Rosa, em Cordisburgo, e a professora Diomira Faria, da Universidade Federal de Minas Gerais, curadora da exposição «Sertão Mundo». A presença destes convidados proporciona ao público português acesso a um olhar institucional e académico sobre a obra e o seu arquivo, assim como experiências de curadoria que interligam literatura, imagem e memória.
| Local | Data | Principais participantes |
|---|---|---|
| Montemor‑o‑Novo | 7 de setembro | Dôra Guimarães; Tiago Goulart; Diomira Faria; autarquia local |
| Loulé | -- | Autarquia de Loulé; Universidade do Algarve |
| Lisboa | -- | Fundação José Saramago; outros parceiros |
O ciclo pretende não só honrar a obra de Guimarães Rosa no seu septuagésimo aniversário, como também estimular o diálogo entre investigadores, curadores e público, propondo leituras orais e reflexões que cruzam saberes e territórios. Para Montemor‑o‑Novo, a iniciativa representa uma oportunidade para reforçar a oferta cultural do concelho e para congregar leitores, estudantes e agentes culturais num encontro dedicado à palavra e à narração.
Ao trazer ao Alentejo um universo literário tão vincadamente brasileiro, a programação reforça a dimensão transatlântica das culturas de língua portuguesa e a capacidade das obras centrais da língua de falar a realidades diversas. A cidade prepara‑se, por isso, para receber a voz do Sertão em português, no ritmo cadenciado que a memória exige.