Em maio deste ano, uma intervenção judicial em Montemor-o-Novo culminou no resgate de 70 cães que viviam em condições de aparente negligência num canil particular gerido por um matilheiro. A situação, denunciada através de queixas e imagens que alertaram as autoridades, motivou uma operação de retirada dos animais, que desde então têm sido acolhidos por um conjunto alargado de associações e respostas cívicas.
Resgate e distribuição
Os cães, muitos magros e com feridas, alguns com sinais de reacção ao medo e à contenção continuada, foram retirados por recomendação da procuradoria e pela intervenção das forças locais. A autarquia de Montemor-o-Novo procedeu, em sequência, à esterilização de 20 animais e retirou vários cachorros que considerou estarem em situação de risco imediato.
A logística de acolhimento implicou a cooperação entre o canil municipal — que não dispunha de capacidade para receber todos os animais — e várias organizações do país. Ao todo, os 70 cães foram encaminhados para 12 entidades:
- Cantinho dos Animais de Beja
- Animal Rescue Algarve (ARA)
- Associação Bianca, Sesimbra
- Wigglestail Animal Sanctuary, Messines
- Tiny Shelter
- Coração 100 Dono
- Quintinha ABC
- CRAPAA
- Amigo Fiel, Bombarral
- Associação Mafra
- Cadela Carlota
- Canil Municipal de Montemor-o-Novo
Estado dos animais e trabalho voluntário
Uma voluntária que participou na operação de resgate descreveu um dia exaustivo de trabalho de triagem e distribuição: cerca de 10 horas a receber, avaliar e encaminhar cada animal para as organizações que se prontificaram a ajudar. Sobre o estado físico e psicológico dos cães, disse que «não há palavras», referindo magreza extrema, feridas e reacções de medo, sobretudo entre os que estavam presos por corrente.
«Não há palavras», afirmou a voluntária ao descrever o estado físico e emocional dos animais durante a operação.
Apesar do historial de maus-tratos, a mesma fonte destacou também a docilidade surpreendente de muitos cães — traço que, segundo a voluntária, terá sido instrumentalizado pelo matilheiro para os usar como dadores de sangue.
Envolvimento institucional e consequências locais
O caso trouxe ao de cima a fragilidade das respostas locais face a situações de acolhimento em larga escala. O canil municipal, segundo relatos, não teria capacidade para suportar sozinho a recepção dos 70 animais, realidade que levou à mobilização de organizações de diferentes pontos do país. A autarquia assumiu medidas sanitárias imediatas — incluindo as esterilizações — e a retirada de cachorros considerados em risco.
| Item | Valor |
|---|---|
| Total de cães resgatados | 70 |
| Organizações que acolheram | 12 |
| Cães esterilizados pela Câmara | 20 |
O homem identificado como matilheiro, cujo canil servia igualmente como fonte de animais para colheitas de sangue, é referenciado nos relatos como Francisco Almeida. A investigação e a intervenção decorreram por ordem judicial, com acompanhamento de autoridades competentes.
O que falta acontecer
Dos 70 cães resgatados, muitos continuam a aguardar um «final feliz» — adoção responsável ou integração em estruturas de acolhimento definitivo. Iniciativas locais de divulgação, como a plataforma Lucky Dogs Montemor, têm procurado dar visibilidade a animais disponíveis para adopção e a facilitar ligações entre famílias e associações. A situação deixa, contudo, questões por resolver em termos de capacidade municipal, prevenção de maus-tratos e fiscalização continuada.
Na paisagem calma do Alentejo, casos como este lembram a urgente necessidade de articulação entre magistratura, autarquias, forças de segurança e sociedade civil para assegurar que a memória e o bem-estar das gentes da terra — humanas e animais — sejam preservados.