O debate sobre o futuro do turismo português recolheu esta semana vozes do Governo, da banca e da consultoria para sublinhar que o desafio deixou de ser apenas atrair mais visitantes: passa agora por criar mais valor, qualificar a oferta, apostar na sustentabilidade e distribuir melhor os benefícios pelo território. As conclusões surgem num painel que reuniu Pedro Machado, secretário de Estado do Turismo, Comércio e Serviços (SETCS); Miguel Maia, CEO do Millennium BCP; e António Brochado Correia, presidente da PwC.
Uma estratégia com horizontes mais amplos
Pedro Machado destacou a «consistência» das políticas públicas como factor determinante para a afirmação internacional de Portugal como destino turístico. Segundo o governante, a continuidade das políticas nas últimas décadas criou «previsibilidade e confiança» junto dos investidores, contribuindo para a «consolidação da marca turística portuguesa».
Na intervenção do secretário de Estado foi igualmente realçada a subida portuguesa no Travel & Tourism Development Index (TTDI) do World Economic Forum (WEF), onde o país passou do 12.º para o 11.º lugar — um sinal, segundo o responsável, de que «Portugal saiu do banco e passou a integrar a equipa principal do turismo mundial».
| Índice | Posição (anterior) | Posição (actual) |
|---|---|---|
| Travel & Tourism Development Index (WEF) | 12.º | 11.º |
Da procura à criação de valor
Para Miguel Maia, CEO do Millennium BCP, o principal desafio deixou de ser a procura — «o país é atrativo», afirmou — e passa antes pela fragmentação da oferta e pela complexidade do ecossistema turístico. O responsável defendeu uma «maior coordenação» entre os diferentes intervenientes para garantir que o crescimento do sector se traduza em maior criação de valor.
«É preciso que o turismo não cresça só, mas que cresça melhor»
A mensagem de Miguel Maia tem implicações directas para municípios como a Maia, onde a actividade turística tradicionalmente não domina a economia local mas onde a qualidade dos serviços, a restauração e o alojamento desempenham um papel crescente no tecido empresarial. O CEO do banco sublinhou ainda o peso das micro e pequenas empresas, nomeadamente na restauração e no alojamento, como peças fundamentais para a coesão territorial e para o funcionamento do ecossistema turístico.
Impactos locais e prioridades para a região Norte
Num território densamente urbanizado como o da Área Metropolitana do Porto, onde a Maia se insere, as estratégias de «mais valor e menos massificação» podem traduzir-se em oportunidades e desafios: melhores práticas de gestão, qualificação dos serviços e integração de tecnologia são fatores que potenciariam experiências turísticas mais ricas e rendimento médio por visitante superior. Ao mesmo tempo, a necessidade de uma distribuição mais equitativa da procura exige políticas que incentivem itinerários e serviços para além dos pólos tradicionais, evitando pressões sobre infraestruturas e promovendo desenvolvimento local sustentável.
- Qualificação profissional: formação adaptada para restauração, alojamento e guias locais, que são essenciais nas redes de micro e pequenas empresas.
- Coordenação institucional: concertação entre autarquias, empresas e entidades regionais para desenhar produtos turísticos com maior valor acrescentado.
- Tecnologia e sustentabilidade: digitalização de serviços turísticos e políticas de sustentabilidade para preservar o património natural e urbano.
António Brochado Correia, da PwC, juntou ao painel a visão de consultoria sobre a necessidade de preparar o sector para futuras crises, reforçando a ideia de que resiliência e qualidade deverão ser pilares do próximo ciclo. A convergência de opiniões entre Governo, banca e consultoria sinaliza um consenso sobre a transição para um turismo mais qualificado e menos dependente apenas do crescimento do número de visitantes.
Para a Maia e para outras localidades da região Norte, a mensagem é clara: aproveitar a atractividade nacional exigirá estratégias locais que privilegiem a diferenciação, a valorização da oferta e o apoio às micro e pequenas empresas. O efeito líquido desejado é um turismo que gere mais riqueza nos territórios, melhore a experiência de quem visita e aumente a qualidade de vida de quem aqui vive.
As recomendações do painel apontam para medidas que vão desde incentivos à modernização empresarial até programas de formação e iniciativas de promoção coordenada. Resta ver como essas linhas orientadoras serão transpostas para políticas e projectos concretos a nível municipal e regional, onde se decidirá, em grande parte, se o crescimento do turismo será efectivamente «melhor».