Projeto-piloto arranca em terreno de Gouveia com objetivo de controlar combustível florestal
A associação Urze – Associação Florestal da Encosta da Serra da Estrela implementou, em Gouveia, um projeto-piloto que recorre à pastorícia com bovinos da raça cachena como instrumento de prevenção de incêndios. A intervenção decorre numa parcela de 12 hectares na Área Integrada de Gestão da Paisagem (AIGP) do Aljão e está prevista para um período de cinco anos, com financiamento do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).
Segundo a Urze, já se encontram no terreno 11 vacas, colocadas numa área vedada e equipadas com coleiras de controlo por pastor vertical, tecnologia que permite acompanhar e gerir a mobilidade dos animais em ambiente florestal. A escolha da raça cachena assenta na sua aptidão para consumir não só pasto, mas também matos e giestas, tornando-a, na avaliação da associação, mais adequada do que o uso exclusivo de caprinos em determinadas faixas de gestão do combustível.
Racional técnico e objetivos económicos
O projeto conjuga três objetivos principais: reduzir a carga de combustível vegetal, contribuir para a preservação da biodiversidade e criar um valor económico local associado à produção de carne. Nas palavras da própria Urze, a iniciativa pretende demonstrar que «a produção animal sustentável e a silvicultura preventiva podem atuar em simbiose».
«Em vez de se gastar dinheiro nas limpezas das faixas de gestão de combustível, de três em três anos, que não é rentável e é muito poluidor, gasta-se nas vacas de raça cachena que trazem valor acrescentado», afirmou o presidente da Urze.
A associação sublinha que a presença dos bovinos permite criar descontinuidades no coberto vegetal — faixas ou manchas onde o combustível é reduzido — condição considerada «vital» para limitar a progressão de incêndios de grande dimensão. Paralelamente, pretende-se associar essa função de gestão do território a um produto alimentado pelo património genético autóctone.
Escalabilidade e próximos passos
A Urze tem como objetivo replicar a experiência noutras áreas integradas. Está prevista a extensão da metodologia a mais duas AIGP, com uma área referida de cerca de 1.000 hectares, envolvendo dois agrupamentos de baldios entre Gouveia e Alvoco da Serra (concelho de Seia). A associação promoveu uma visita técnica ao local para dar a conhecer o projeto a representantes do setor agrícola e florestal.
- Área piloto: 12 hectares na AIGP do Aljão (Gouveia).
- Duração prevista: 5 anos.
- Animais em campo: 11 vacas da raça cachena.
- Financiamento: Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).
- Perspetiva de expansão: replicação para cerca de 1.000 hectares entre Gouveia e Alvoco da Serra.
| Parâmetro | Valor |
|---|---|
| Área piloto | 12 hectares |
| Número de bovinos | 11 |
| Duração prevista | 5 anos |
| Expansão prevista | ~1.000 hectares (duas AIGP em Seia) |
Contexto local e implicações para a gestão do fogo
No concelho de Gouveia, território marcado por incêndios recentes, iniciativas que integram gestão ativa do combustível e economia local são vistas como respostas complementares às medidas tradicionais de limpeza manual ou mecânica. A Urze argumenta que a opção por animais adaptados ao contexto montanhoso pode reduzir custos a médio e longo prazo e diminuir a pegada ambiental associada às operações de limpeza periódica.
Do ponto de vista técnico, a utilização de gado para criar descontinuidades no combustível vegetal insere-se num conjunto mais vasto de medidas de gestão integrada de paisagens, que requerem planeamento, acompanhamento científico e articulação com proprietários, baldios e entidades públicas. O projeto-piloto em Gouveia funcionará, por isso, como caso de estudo para avaliar eficiência, custos, benefícios ambientais e aceitação social antes de decisões sobre expansão em larga escala.
A monitorização dos efeitos na carga combustível, na biodiversidade e na produção de carne será determinante para aferir o potencial replicável da abordagem em outros mosaicos florestais da serra. A acção da Urze promove simultaneamente conservação de uma raça bovina autóctone e alternativas à gestão convencional do terreno, inserindo-se nas políticas de prevenção apoiadas por fundos europeus e nacionais.