Saúde Serpa Alentejo

Crise na Misericórdia de Serpa: mesa demissionária culpa política por rejeição de parceria privada

A mesa administrativa demissionária da Santa Casa da Misericórdia de Serpa afirma que a estratégia de sustentabilidade financeira, que passava por uma gestão partilhada com o Grupo LA Health, «colidiu com a política». A demissão em bloco deixa no ar o futuro da Unidade Médico-Cirúrgica e da resposta a idosos e cuidados continuados no concelho.

Crise na Misericórdia de Serpa: mesa demissionária culpa política por rejeição de parceria privada
©Ilustração Teresa Mestre Chaves / we-news.com

A mesa administrativa demissionária da Santa Casa da Misericórdia de Serpa (SCMS) divulgou um comunicado em que sustenta que a estratégia delineada para garantir a sustentabilidade financeira da instituição «colidiu com a política». A intenção de celebrar contratos com um grupo privado para gerir áreas sociais e de saúde foi rejeitada pelos associados na assembleia-geral, no dia 27 de julho, e motivou a demissão em bloco dos órgãos de administração no final daquele mês.

Decisão dos associados e proposta recusada

Na assembleia-geral, os associados votaram contra a proposta que previa a celebração de dois contratos com o Grupo LA Health. Um dos acordos destinava-se à gestão da estrutura residencial para pessoas idosas (ERPI) e da unidade de cuidados continuados integrados (UCCI); o outro contrataria serviços de consultoria e mediação na área da saúde. Segundo a mesa demissionária, o modelo proposto visava garantir «uma receita regular» e reduzir o risco operacional da Misericórdia numa área que considera deficitária por falta de profissionais.

Os administradores saíram do cargo alegando que, face à recusa do Estado em integrar a Unidade Médico-Cirúrgica da instituição no Serviço Nacional de Saúde (SNS) através da Unidade Local de Saúde do Baixo Alentejo (ULSBA), e à «ausência de compromisso da União das Misericórdias Portuguesas», a opção por um parceiro com capacidade técnica e financeira era a alternativa viável para manter serviços essenciais.

«Infelizmente, a estratégia de salvação colidiu com a política», afirma o comunicado da mesa administrativa, liderada pela provedora demissionária Maria Isabel Estevens.

Consequências para serviços e trabalhadores

A saída da mesa administrativa abre um período de incerteza quanto ao futuro da Unidade Médico-Cirúrgica, da ERPI e da UCCI, serviços que asseguram respostas à população idosa e a doentes que necessitam de continuidade de cuidados. A mesa demissionária enfatiza que a proposta visava também retirar à Misericórdia o risco associado à exploração de serviços de saúde considerados deficitários, sobretudo devido à escassez de profissionais.

Sem uma solução acordada, persistem dúvidas sobre a capacidade da instituição para cumprir as obrigações assumidas no âmbito do Processo Especial de Revitalização (PER), um elemento central invocado pelos administradores demissionários para justificar a busca de soluções externas. A postura dos associados em rejeitar a parceria privada tem sido descrita pela mesa como uma instrumentalização do voto, que terá sido influenciada por atores internos como o sindicato dos trabalhadores, segundo o comunicado.

  • 27 de julho — assembleia-geral em que os associados rejeitaram a proposta com o Grupo LA Health.
  • Final de julho — demissão em bloco da mesa administrativa, presidida por Maria Isabel Estevens.
  • Contratos propostos — gestão da ERPI e UCCI; serviços de consultoria e mediação na área da saúde.

Memória e voz do território

No Alentejo, e em Serpa em particular, a Misericórdia é muito mais do que uma entidade prestadora de serviços: é um ponto de referência social e histórica. As decisões sobre a sua gestão suscitam, por isso, reações que combinam preocupações técnicas com interesses comunitários profundos. A defesa de modelos de gestão que preservem a autonomia da instituição e a proteção dos trabalhadores contrasta com a necessidade de garantir viabilidade financeira e continuidade dos cuidados.

Perante este impasse, a comunidade local aguarda clarificações sobre os próximos passos: se haverá intervenção da tutela, mediação por parte da União das Misericórdias Portuguesas, ou a convocação de novos órgãos provisórios que assegurem a gestão corrente até à eleição de uma nova mesa. A transparência das decisões e a salvaguarda dos serviços essenciais são questões centrais para os utentes e famílias que dependem diariamente das respostas da Misericórdia de Serpa.

AssuntoEstado
Proposta com Grupo LA HealthRejeitada pelos associados (27 de julho)
Mesa administrativaDemissionária (final de julho)
Unidade Médico-CirúrgicaNão integrada no SNS pela ULSBA — em discussão

Enquanto se definem responsabilidades e caminhos, a urgência é prática: manter respostas de saúde e cuidados continuados no concelho. A memória das gentes de Serpa, que sempre presidiu a este tipo de instituições, chama agora por soluções que sejam ao mesmo tempo sustentáveis e respeitadoras da missão social que a Misericórdia historicamente cumpre.

Teresa Mestre Chaves
Teresa IA Correspondente no Alentejo online

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