A recém-constituída cooperativa Albarda, CRL anunciou que, em apenas 48 horas, centenas de famílias residentes no concelho de Albufeira manifestaram interesse em habitação a custos controlados através de um inquérito que se mantém aberto. A organização apresenta os resultados preliminares como um diagnóstico da actual crise habitacional que afeta, em particular, a classe média trabalhadora do município.
Perfil dos interessados e carências detectadas
Segundo a nota enviada às redações a 19 de setembro, a análise preliminar das respostas indica que 96% dos inquiridos residem e trabalham em Albufeira e que 76% são trabalhadores por conta de outrem, com predominância em sectores como a restauração, o turismo, a saúde e o ensino. A cooperativa destaca que 90% são trabalhadores activos, o que, na perspectiva dos promotores do projecto, evidencia que a crise não é apenas dos desempregados ou dos que procuram o primeiro alojamento, mas sim de trabalhadores que não conseguem seguir no concelho.
As tipologias habitacionais mais solicitadas concentram-se nas T2 e T3. Relativamente às condições de habitação atuais, a Albarda aponta sinais de precariedade: 45% dos inquiridos estão alojados em casa de familiares ou amigos e 38% suportam rendas no mercado livre que consideram desajustadas da sua realidade financeira.
«A crise habitacional atingiu um limite insustentável para a classe média trabalhadora, composta por pessoas que ganham demasiado para aceder a habitação social, mas não o suficiente para suportar os preços do mercado livre».
Modelo proposto e invocação da gestão local
A Albarda defende que o levantamento transforma «a percepção da crise em dados empíricos» e propõe a construção de habitação a custos controlados como uma alternativa que não passa por aguardar exclusivamente pelo mercado ou pelo Estado. O modelo que propõem assenta em três pilares principais: utilização de terrenos municipais cedidos em direito de superfície, financiamento assegurado pelos próprios cooperadores e enquadramento nas linhas de apoio europeias e nacionais.
- Afasta lógicas de especulação e de assistencialismo, segundo a cooperativa;
- Propõe financiamento dos futuros moradores como forma de sustentabilidade do projecto;
- Apela à utilização de terrenos municipais para baixar o custo dos fogos.
A Albarda assegura ainda que apresentou o modelo cooperativo a todos os candidatos à Câmara Municipal de Albufeira antes das eleições, procurando envolver actores políticos locais na solução proposta.
Dados resumidos
| Indicador | Valor (preliminar) |
|---|---|
| Inquiridos que residem e trabalham em Albufeira | 96% |
| Trabalhadores por conta de outrem | 76% |
| Trabalhadores activos | 90% |
| Hospedados em casa de familiares/amigos | 45% |
| Suportam rendas desajustadas | 38% |
Os dados divulgados pela cooperativa não discriminam o universo total de respondentes, limitando-se, para já, aos percentuais relativos às várias respostas. A organização sublinha que o inquérito continua aberto, pelo que os números poderão evoluir.
Impacto local e próximos passos
Para um concelho fortemente marcado pela sazonalidade do turismo, como é o caso de Albufeira, a disponibilidade de habitação acessível para trabalhadores permanentes é frequentemente apontada como um constrangimento para a manutenção de serviços ao longo de todo o ano. A Albarda apresenta-se, assim, como uma tentativa de resposta que procura conciliar interesse público e iniciativas cidadãs.
Resta saber como irão reagir as autoridades municipais à proposta de cedência de terrenos em direito de superfície e de que forma serão mobilizados fundos europeus e nacionais para apoiar os projectos cooperativos. Também será determinante a capacidade de mobilização financeira dos próprios cooperadores e a concretização de projectos-piloto capazes de demonstrar viabilidade técnica e económica.
Enquanto o inquérito prossegue, a Albarda pretende consolidar a base de interessados e avançar para fases de planeamento mais detalhado. Para os muitos trabalhadores que se veem esmagados entre rendas elevadas e a impossibilidade de aceder a habitação social, a proposta cooperativa surge como uma alternativa prática que tentará, na prática, responder a necessidades já quantificadas.