Dados do Ministério da Fazenda mostram que, em junho, cerca de 1,8 milhão de pessoas na cidade do Rio de Janeiro fizeram apostas esportivas, número que corresponde a 26,89% da população municipal. Diante dessa dimensão, a Prefeitura do Rio, por meio da Secretaria municipal de Saúde, adaptou procedimentos nas unidades de atendimento para identificar e encaminhar com maior rapidez moradores com transtorno do jogo.
Impactos pessoais e mobilização da rede de saúde
O fenômeno das apostas on-line ganhou destaque com relatos de pessoas que perderam bens, relações familiares e tempo com os filhos. Um dos depoimentos registrados descreve a deterioração de vínculos e a rotina consumida pela compulsão, com o entrevistado relatando horas por dia dedicadas aos jogos e afastamento da família.
“Comecei a enganar pessoas para conseguir dinheiro para jogar, tive que abrir mão de momentos com meus filhos porque ficava no celular cerca de 13 horas por dia.”
Esses relatos motivaram a Secretaria municipal de Saúde a incluir, em todos os atendimentos na rede municipal, duas perguntas de triagem: se o paciente já sentiu vontade de jogar e se já mentiu sobre isso para alguém. Uma resposta positiva a qualquer uma das perguntas leva ao encaminhamento para tratamento especializado.
Abordagem clínica e comorbidades
O secretário municipal de Saúde, Rodrigo Prado, ressalta que muitos pacientes não procuram ajuda diretamente por causa do vício em jogos, o que torna o diagnóstico precoce fundamental. Segundo ele, o transtorno do jogo costuma vir associado a outras condições clínicas, como ansiedade, insônia e depressão, o que exige um tratamento integrado.
“Normalmente as pessoas não chegam às unidades de saúde pela porta principal para buscar tratamentos relacionados a vícios em jogos. Não é uma doença tão fácil de tratar, até porque geralmente há uma questão de ansiedade, insônia, depressão e outras doenças atreladas a esse vício. Estamos tentando tratar de forma precoce.”
Comparação com outras capitais
Os números colocam o Rio em posição de destaque nacional: na mesma pesquisa, a cidade de São Paulo apresentou percentual inferior de apostadores em relação ao total da sua população — 15,75% — apesar de ter população quase duas vezes maior. Essa diferença tem levado autoridades locais a intensificar ações preventivas e de acolhimento.
| Cidade | Número de apostadores (junho) | Percentual da população |
|---|---|---|
| Rio de Janeiro | 1,8 milhão | 26,89% |
| São Paulo | — | 15,75% |
Medidas e orientações
A iniciativa municipal foca em detecção precoce e encaminhamento, mas especialistas e profissionais ouvidos na cobertura enfatizam que a resposta precisa combinar:
- fortalecimento da atenção primária para identificar sinais de dependência;
- oferta de tratamento psicológico e acompanhamento psiquiátrico quando necessário;
- campanhas de prevenção e educação sobre riscos das apostas on-line, especialmente entre jovens.
Além do esforço público, grupos de apoio têm registrado demanda crescente. Pessoas em tratamento citam perdas materiais e emocionais substanciais, bem como dificuldades para retomar rotina e relações familiares. O relato citado acima é um exemplo das consequências pessoais que as autoridades buscam mitigar com a nova triagem na rede municipal.
Provedores de jogos e plataformas on-line não fazem parte da gestão municipal, mas a presença intensa de publicidade e oferta facilitada por apps e sites é um fator que especialistas consideram relevante para explicar a expansão do número de apostadores. A Prefeitura do Rio concentra, por ora, suas ações no acolhimento clínico e na conscientização comunitária, tentando dar resposta imediata à demanda crescente por tratamento.
O município também avalia indicadores para monitorar evolução do problema e a efetividade das medidas adotadas, com o objetivo de ajustar protocolos e ampliar a rede de suporte conforme necessário.