Temática e origem da Trilogia
O Sesc Guarulhos recebe, entre os dias 14, 15 e 16 de agosto, duas peças que fazem parte da Trilogia da Fuga, pesquisa do ator e dramaturgo Jhonny Salaberg. As montagens Buraquinhos e Parto Pavilhão, ambas com direção de Naruna Costa, articulam o realismo fantástico à denúncia explícita do que os autores caracterizam como o genocídio da população negra periférica no Brasil.
Pesquisa de dez anos e estrutura da trilogia
A pesquisa, que completa 10 anos em 2026, reúne três peças com proposições estéticas distintas, mas um eixo temático comum: a violência sobre corpos negros e periféricos e a busca pela sobrevivência como forma de fuga. A trilogia é composta por:
- Mato Cheio — direção de Ivy Souza;
- Buraquinhos — direção de Naruna Costa;
- Parto Pavilhão — direção de Naruna Costa.
Sinopse e linguagem de Buraquinhos
Buraquinhos utiliza o realismo fantástico como estratégia estética e política. A narrativa acompanha um menino negro de doze anos que, ao sair para comprar pão a pedido da mãe, é abordado pela polícia. A fuga que se segue atravessa países da América Latina e da África, e, ao longo do percurso, o corpo do personagem é perfurado por 111 tiros até seu retorno ao bairro com pães, tiros e órgãos — uma imagem que tensiona o trágico e o simbólico para traduzir a violência cotidiana.
"Em um país onde um jovem negro é morto a cada 23 minutos... a dramaturgia transforma o absurdo em espelho da realidade."
Estética: leveza como resistência
O trabalho se ancora na noção de Leveza proposta por Italo Calvino no livro Seis propostas para o próximo milênio, entendida não como suavidade, mas como uma potência para imaginar outras formas de narrar o insuportável. Ao deslocar a cena do naturalismo estrito, a peça constrói imagens simbólicas que procuram dar corpo a uma experiência social marcada pela perda e pela violência institucional.
Programação no Sesc Guarulhos
| Data | Espetáculo |
|---|---|
| 14 de agosto | Buraquinhos / Parto Pavilhão |
| 15 de agosto | Buraquinhos / Parto Pavilhão |
| 16 de agosto | Buraquinhos / Parto Pavilhão |
Impacto cultural e repertório
Com oito anos de circulação, Buraquinhos já recebeu indicações e prêmios em diferentes categorias teatrais e integra conteúdos de vestibulares e grades curriculares universitárias, segundo a documentação da pesquisa. A presença da trilogia no calendário do Sesc Guarulhos amplia o diálogo entre universidade, movimentos culturais e o público metropolitano, ao colocar em cena relatos e imagens que tensionam tanto a cidade quanto as políticas públicas de segurança e inclusão.
A apresentação em Guarulhos ocorre em um momento de intensa circulação de debates sobre violência urbana, política cultural e acesso à formação crítica nas periferias. A opção estética pelo realismo fantástico e pela linguagem simbólica serve, no projeto, como instrumento de denúncia e de reexistência: formar imagens que permitam enxergar e pensar a repetição da tragédia como questão pública.
Para o público guarulhense, a temporada no Sesc é uma oportunidade de confrontar essas questões no espaço público do teatro — lugar em que a pesquisa de Jhonny Salaberg propõe tanto um espelho quanto uma alternativa narrativa frente à violência.