O estado do Rio de Janeiro chega às urnas em 2026 sob a sombra de uma década marcada por decisões extraordinárias da União nas áreas de segurança pública e finanças. Governado atualmente por um administrador interino nomeado pelo Supremo Tribunal Federal, o pleito é visto por especialistas e por parcela da sociedade como uma oportunidade para interromper uma sequência de intervenções, editais federais e apoios emergenciais.
Histórico recente de intervenções
Nos últimos dez anos, o Rio assinou ao menos dois acordos de renegociação de dívida, recebeu ajuda financeira extraordinária pouco antes das Olimpíadas e teve, por três ocasiões, a presença das Forças Armadas em operações de segurança — incluindo uma intervenção federal de grande repercussão em 2018. Esse conjunto de medidas coloca o estado em posição singular, devido ao seu peso econômico e demográfico: é o segundo maior PIB estadual do país e abriga a segunda maior região metropolitana.
A mobilização das Forças Armadas no estado remonta à década de 1990. Em 1994 houve um emprego de tropas para tentar reverter o controle territorial de facções então em expansão; desde então foram decretadas cerca de 20 GLOs (Garantia da Lei e da Ordem), instrumento pelo qual os militares podem atuar em policiamento e operações internas. As GLOs foram empregadas em grandes eventos, em ocupações de favelas para instalação de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) e em operações portuárias e aeroportuárias — a última registrada em 2023, assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e encerrada em 2024.
"A tradição do Brasil de ter o Rio de Janeiro como capital não foi destruída. Brasília, de uma maneira ou de outra, não conseguiu substituir o papel do Rio de Janeiro como capital. Então esse tipo de investimento na capitalidade do Rio de Janeiro faz com que essa intervenção de fora seja aceita e entendida como alguma coisa da esfera natural"
A reflexão acima é da historiadora Marly Motta, presente no dossiê sobre a relação entre capitalidade histórica do Rio e a frequência de intervenções federais. Para Motta, há uma via de mão dupla: o peso simbólico da cidade e as fragilidades institucionais estaduais contribuiriam para que medidas externas sejam percebidas como naturais.
Finanças em foco
O orçamento do estado também foi palco de sucessivas renegociações. O primeiro refinanciamento mencionado nas matérias sobre o tema ocorreu em 1999, na gestão do então governador Anthony Garotinho. Mais recentemente, o Rio aderiu ao Regime de Recuperação Fiscal — mecanismo federal que impõe medidas de ajuste em troca de assistência financeira — e recebeu apoio pontual em momentos de aperto orçamentário.
Essa combinação de reequacionamentos de dívida e auxílios extraordinários tem implicações práticas: cortes de investimentos, limitação de gastos com saúde, educação e segurança pública, e impacto sobre serviços públicos. Para eleitores e candidatos, as eleições de 2026 são vistas como chave para definir se o estado retoma autonomia fiscal ou continua sujeito a mecanismos de intervenção.
Segurança pública e legitimidade
Militarizações e operações federais, especialmente quando repetidas, colocam em debate a eficácia das soluções e a legitimidade do uso de forças externas em território estadual. A presença recorrente das Forças Armadas em atividades policiais levanta questões sobre coordenação entre esferas de governo e sobre caminhos permanentes para a redução da violência urbana.
Analistas destacam que a dependência de ações federais pode mascarar problemas estruturais da segurança pública, como deficiências de inteligência, políticas de prevenção e investimento em polícia civil e guarda municipal. A alternância entre ocupações e saídas abruptas das forças externas é apontada por parte da sociedade civil como fator que dificulta a construção de políticas de longo prazo.
O que as urnas definem
Além da escolha de governantes, o pleito tem potencial para marcar a direção das relações entre estado e União nos próximos anos: decisão por maior autonomia administrativa e fiscal, busca por acordos alternativos de gestão das contas públicas, ou manutenção do padrão de solicitações de apoio federal. No cenário político, os resultados afetarão também negociões com o Congresso e a capacidade do novo governo de implementar medidas estruturantes.
Enquanto isso, eleitores do Rio observam propostas e promessas sobre recomposição de serviços públicos e estratégias de segurança. O desafio: transformar medidas emergenciais em políticas sustentáveis que reduzam a necessidade de intervenções externas e devolvam ao estado maior previsibilidade administrativa.
- 20 GLOs registradas desde a década de 1990;
- 1994 — primeira grande mobilização militar para enfrentar facções em expansão;
- 1999 — primeiro refinanciamento citado (governo Anthony Garotinho);
- 2018 — intervenção federal na segurança pública;
- 2023 — última GLO, para apoio em portos e aeroportos, encerrada em 2024.
| Ano/evento | Tipo |
|---|---|
| 1994 | Mobilização militar contra facções |
| 1999 | Refinanciamento da dívida (Garotinho) |
| 2018 | Intervenção federal na segurança |
| 2023–2024 | GLO para portos e aeroportos |
As urnas de 2026 serão, portanto, um termômetro não apenas para a sucessão do Palácio Guanabara, mas para a definição do papel que o Rio de Janeiro pretende ocupar frente à União: um estado que busca mais autonomia e estabilidade, ou um território que continuará a contar com intervenções e socorros em momentos de crise.