Um levantamento regional revela que moradores de Ribeirão Preto com 65 anos ou mais apresentam, entre janeiro e agosto de 2026, o maior valor médio de pendências junto a instituições financeiras: R$ 41.847,96. O montante supera em 12 vezes o registrado para a faixa de 18 a 24 anos, cujo ticket médio ficou em R$ 3.411,05.
Distribuição por idades e fatores explicativos
Os dados foram compilados pela plataforma de renegociação Acordo Certo e mostram evolução progressiva do valor médio das dívidas conforme aumenta a idade. As médias para as demais faixas na região ficaram assim:
| Faixa etária | Ticket médio (R$) |
|---|---|
| 18–24 anos | 3.411,05 |
| 25–34 anos | 9.206,70 |
| 35–44 anos | 16.829,38 |
| 45–54 anos | 25.082,94 |
| 55–64 anos | 31.495,79 |
| 65 anos ou mais | 41.847,96 |
Para especialistas, a explicação passa por características do histórico financeiro e do papel dessas pessoas nas estruturas familiares. Eduardo Cavalheiro, gerente de Comunicação da Consumidor Positivo, ressalta que relações longas com bancos e acesso a linhas de crédito maiores ampliam o impacto quando surgem dificuldades de pagamento.
“Não estamos falando simplesmente de uma questão de consumo ou de falta de controle. É um indivíduo que, em muitos casos, tem décadas de relacionamento com bancos, patrimônio acumulado e acesso a produtos de crédito de valores mais altos. Quando surge uma dificuldade para pagar, o impacto financeiro tende a ser muito maior.”
Outro ponto destacado é que idosos, com renda mais estável, costumam assumir compromissos em benefício de familiares — por exemplo, por meio de empréstimos contraídos em seu nome ou cedendo cartões. Quando esses terceiros deixam de honrar o pagamento, a responsabilidade permanece com o titular do contrato, o que pode elevar de forma significativa o peso da dívida sobre rendas que muitas vezes são fixas.
Contexto demográfico: Ribeirão Preto envelhece
Os números do endividamento ganham ainda mais relevância diante da mudança na composição etária do município. Estimativas da Fundação Seade apontam que, em 2026, 13,5% da população de Ribeirão Preto tem 65 anos ou mais — o que equivale a aproximadamente 98 mil pessoas. Esse crescimento da parcela idosa da população torna mais urgente o debate sobre práticas de crédito, educação financeira e mecanismos de proteção ao consumidor na cidade.
- Impacto familiar: idosos podem assumir dívidas que não são originadas por consumo próprio, mas por ajuda a filhos e netos.
- Exposição ao crédito: relacionamento longo com o sistema bancário e acesso a produtos de maior valor elevam o risco financeiro.
- Política pública: envelhecimento demográfico exige atenção de servidores municipais e conselhos de defesa do consumidor.
Os resultados da Acordo Certo trazem à tona questões práticas para bancos, órgãos de proteção ao consumidor e políticas de inclusão financeira. Em um cenário com participação crescente de idosos na população, medidas que articulem educação financeira adaptada, análise responsável de concessão de crédito e alternativas para renegociação tornam-se estratégias centrais para mitigar efeitos sociais e econômicos.
Do ponto de vista municipal, a interação entre secretarias de Assistência Social, Saúde e Desenvolvimento Econômico pode ser ampliada para identificar grupos vulneráveis e desenvolver programas que evitem o superendividamento, especialmente entre aposentados e pensionistas. Ao mesmo tempo, a regulação de ofertas de crédito e a fiscalização de contratos podem reduzir práticas que transferem riscos excessivos para consumidores mais velhos.
O levantamento não traz, porém, detalhamento sobre os tipos específicos de produtos que compõem as pendências (cartões, empréstimos consignados, financiamentos etc.) nem aponta a concentração das dívidas entre instituições, informações que ajudariam a definir políticas mais precisas. Ainda assim, os números reforçam a necessidade de debate local sobre proteção do consumidor e alternativas de renegociação que preservem renda e patrimônio para a população idosa de Ribeirão Preto.