Um mapeamento do INCT Representação e Legitimidade Democrática (ReDem), da Universidade Federal do Paraná, identifica um conjunto de 145 municípios em São Paulo que historicamente alternaram votos nos segundos turnos das eleições presidenciais entre 2002 e 2022. Esses territórios — que os pesquisadores classificam como cidades-pêndulo — concentram hoje 13,97 milhões de eleitores aptos a votar, o equivalente a 40,95% do eleitorado do estado.
Por que essas cidades importam
A relevância das cidades-pêndulo vai além do montante de eleitores. O diagnóstico do ReDem mostra um Estado politicamente dividido: enquanto a direita alcançou hegemonia ou dominância em 480 municípios (74,4% das cidades paulistas), o PT tem base consolidada em apenas 20 municípios, que reúnem cerca de 415,5 mil eleitores — pouco mais de 1% do eleitorado paulista. Na prática, isso coloca o destino eleitoral de candidaturas petistas nas mãos do comportamento desses municípios oscilantes.
Em duas décadas, o padrão dessas cidades variou. Em alguns ciclos electorais elas deram maioria a candidatos de esquerda (como Lula, Dilma e, em termos locais, Haddad), enquanto em outros favoreceram nomes de direita ou de centro-direita (José Serra, Geraldo Alckmin, Aécio Neves e Jair Bolsonaro). Em 2018, muitas delas migraram para o então PSL; em 2022, uma parcela substancial voltou a apoiar Lula.
A capital como centro gravitacional
A cidade de São Paulo desempenha papel central nesta geografia eleitoral. Com 9,13 milhões de eleitores aptos, a capital é apontada pelos pesquisadores como o núcleo que influencia 18 municípios pendulares ao seu entorno. Na eleição de 2018 a capital havia preferido Bolsonaro; em 2022 mudou para Lula, que obteve aproximadamente 53,5% dos votos na cidade — um movimento que ilustra a volatilidade observada em grande parte do estado.
- 145 — municípios classificados como pendulares em SP
- 13,97 milhões — eleitores nessas cidades (40,95% do eleitorado paulista)
- 480 — municípios com domínio eleitoral da direita (74,4% dos municípios)
- 20 — municípios com hegemonia do PT (1,22% do eleitorado)
Consequências para candidaturas e campanhas
O mapa do ReDem sugere que, sem bases amplas no interior paulista, candidaturas vinculadas ao PT — incluindo a do ex-prefeito Fernando Haddad ao governo estadual — dependerão fortemente da capacidade de conquistar eleitores nessas áreas oscilantes. Para a oposição, o desafio é consolidar sua hegemonia atual e neutralizar avanços do campo progressista nesses municípios decisivos.
A estratégia eleitoral, portanto, terá de combinar presença local e agenda que dialogue com prioridades regionais: saúde, segurança, emprego e infraestrutura costumam pesar de forma diferenciada conforme o porte urbano e o perfil socioeconômico dos municípios. Campanhas que ignorarem as especificidades desses 145 territórios correm o risco de perder votos em cadeias de municípios que, no agregado, decidem eleições.
Dados em perspectiva
| Categoria | Número de municípios | Eleitores aproximados |
|---|---|---|
| Cidades-pêndulo | 145 | 13,97 milhões |
| Cidades com domínio da direita | 480 | 19,72 milhões |
| Cidades com hegemonia do PT | 20 | 415,5 mil |
Esses números embasam uma leitura estratégica: a polarização do mapa eleitoral paulista concentra-se em municípios onde a fidelidade partidária é frágil. A capacidade de virar esse eleitorado depende de fatores locais e nacionais, e da articulação entre campanhas estaduais e presidenciais.
Implicações práticas para eleitores e gestores
Para gestores municipais e lideranças locais, o cenário reforça a importância de ações concretas e visíveis — sobretudo em serviços públicos essenciais — que possam afetar o voto no curto prazo. Para eleitores, a volatilidade observada indica que mudanças locais em políticas públicas e na oferta de serviços podem ter impacto direto nas próximas votações.
O estudo do ReDem não prevê resultados, mas traça a geografia de uma disputa em que o jogo não se decide apenas nas grandes cidades ou em bolsones ideológicos fixos. Em São Paulo, o resultado eleitoral passará, em boa medida, por municípios que ainda não se fixaram a nenhum dos polos políticos — e que, historicamente, têm sido decisivos na alternância de poder.
Reportagem baseada em levantamento do INCT ReDem/UFPR e em dados de votação estaduais (2002–2022).