O Festival Internacional de Música Religiosa de Guimarães atravessa uma crise institucional depois de o maestro e compositor César Viana ter anunciado a sua demissão da direção artística, num gesto que liga cultura, política municipal e diplomacia. A saída foi explicitada em comunicado onde o diretor invoca «razões de consciência» face à recente aproximação da Câmara Municipal de Guimarães a representantes de Israel.
Motivação da demissão e reação municipal
Na nota enviada às redações, César Viana afirma que a decisão «é inevitável» após a receção do embaixador de Israel em Portugal, Oren Rozenblat, pelo presidente da Câmara, Ricardo Araújo. O maestro sublinha que não consegue manter‑se «indiferente» àquilo que classifica como uma aproximação institucional e comercial do Município a Israel, no contexto da situação em Gaza.
«Por razões de consciência, não me é possível permanecer indiferente»
Viana procura ainda dissociar a sua saída da apreciação sobre a equipa do festival e o projeto artístico: «Tenho muito orgulho no nível e na dimensão internacional que o Festival alcançou», escreve, destacando a competência e dedicação das equipas com quem trabalhou. O maestro estava à frente da direção artística desde 2023.
Desdobramentos políticos no concelho
A demissão abriu uma frente de contestação política local. Segundo a informação disponível, partidos como o PS, BE, LIVRE e CDU questionaram publicamente a estratégia seguida pelo executivo municipal, pedindo esclarecimentos sobre os contactos e a agenda do Município relativamente a relações institucionais e comerciais que envolvam Israel. O PS, através do vereador Ricardo Costa, exigiu informação adicional sobre os motivos e os objetivos dessas iniciativas.
- Diretor artístico: César Viana (direção desde 2023).
- Contato decisivo: receção do embaixador de Israel, Oren Rozenblat, ao presidente da Câmara, Ricardo Araújo.
- Reações políticas: PS, BE, LIVRE e CDU questionaram a ação do executivo municipal.
Festival e identidade cultural local
A Câmara Municipal de Guimarães caracteriza o festival como «uma iniciativa de serviço público cultural», com foco no repertório religioso, na criação contemporânea e na participação de agrupamentos nacionais e internacionais. O anúncio da saída de Viana coloca agora o Município perante a necessidade de clarificar não só a sua postura diplomática como também o futuro artístico do festival — nomeadamente a continuidade do projecto, a forma de garantir a dimensão internacional que o diretor sublinha e os critérios para uma nova liderança artística.
Para além do impacto imediato — a perda de um diretor que, segundo ele próprio, contribuiu para elevar o nível do festival — surgem interrogações sobre a perceção pública do evento e sobre a eventual politização de iniciativas culturais que tradicionalmente se afirmam por critérios artísticos e comunitários.
Próximos passos e expectativas
Até ao momento, não foi divulgada uma declaração oficial detalhada da Câmara de Guimarães sobre as críticas internas e sobre as razões que motivaram a receção ao embaixador israelita. A oposição local já solicitou esclarecimentos formais e, perante a saída do diretor artístico, cabe ao executivo municipal explicar a estratégia para assegurar a continuidade do festival e a transparência das suas decisões institucionais.
| Elemento | Estado |
|---|---|
| Direção artística | Vaga (demissão de César Viana) |
| Relação Câmara–Israel | Motivo de contestação |
| Reação política | Pedidos de esclarecimento por PS, BE, LIVRE, CDU |
O desfecho deste episódio terá consequências além do calendário do festival: tocará a imagem internacional de Guimarães enquanto anfitriã de eventos de âmbito religioso e artístico, e testará a capacidade do Município para gerir a relação entre compromisso cultural e sensibilidades políticas crescentes na comunidade local.
Na sequência das posições já tornadas públicas, aguarda‑se a emissão de comunicações oficiais por parte do executivo municipal e, possivelmente, propostas de resposta do setor cultural vimaranense para preservar a reputação e a continuidade do Festival Internacional de Música Religiosa.