Na Póvoa de Varzim, a 17.ª edição do festival de teatro É‑Aqui‑in‑Ócio assume uma estratégia explícita de aproximação às populações e de reforço da inclusão. Organizado pela estrutura Varazim Teatro, o certame arranca a 23 de setembro e propõe ao público uma reflexão sobre o medo, tratada também pelo viés do humor, numa programação mista que conjuga espetáculos em sala, iniciativas na rua, propostas internacionais e uma nova secção destinada a jovens artistas e estruturas emergentes.
Descentralizar para chegar a mais públicos
A organização sublinha que a descentralização pretende combater obstáculos de deslocação e ampliar o acesso à cultura fora do centro urbano. O festival vai levar mais espetáculos às freguesias do concelho, com o objetivo de atingir especialmente a população sénior e pessoas com menos facilidade de mobilidade.
«É possível fazer com qualidade a descentralização cultural no país. Por exemplo, as pessoas de maior idade nas freguesias da Póvoa de Varzim não têm tanta facilidade de se deslocarem à cidade. Por isso, vamos nós levar até elas o evento, de maneira a podermos chegar a mais público»,
afirmou o diretor artístico, Eduardo Faria, numa explicitação da estratégia de proximidade. A medida insere‑se numa visão de democratização cultural que não se limita ao conteúdo artístico, mas estende‑se ao local e ao custo de oportunidade de participação.
Acessibilidade e programação complementar
Outra linha estrutural da edição é a acessibilidade. Segundo a organização, todos os espetáculos com texto terão tradução para Língua Gestual Portuguesa (LGP), enquanto uma parte significativa das apresentações no Cine‑Teatro Garrett, espaço âncora do festival, contará com audiodescrição. Paralelamente, manter‑se‑á uma política de preços reduzidos, reconhecendo que a inclusão abrange também a capacidade económica do público.
- Data de início: 23 de setembro
- Edição: 17.ª
- Tema: O medo, tratado também com humor
- Medidas de acessibilidade: LGP e audiodescrição
- Programação: espetáculos em sala, rua, projetos internacionais e secção ‘off’
O festival recupera igualmente uma presença significativa em espaços ao ar livre, característica que marcou edições anteriores, e estreia uma programação ‘off’ pensada para dar visibilidade a criadores em início de carreira e a estruturas emergentes — uma aposta que pode reforçar circuitos locais de trabalho artístico e criar sinergias com associações culturais do concelho.
Abertura e aposta local
A abertura será protagonizada por «A Instalação do Medo», uma criação da Varazim Teatro baseada na obra de Rui Zink. A escolha reforça a ligação entre a produção local e o projeto global do festival, permitindo um cruzamento entre autores e intérpretes nacionais e a comunidade poveira.
| Elemento | Detalhe |
|---|---|
| Edição | 17.ª |
| Início | 23 de setembro |
| Espaço âncora | Cine‑Teatro Garrett (audiodescrição em várias sessões) |
As medidas anunciadas têm implicações claras no panorama cultural local. Ao deslocar espetáculos para as freguesias, o festival reduz barreiras físicas e potencia fluxos culturais que podem beneficiar outros equipamentos e iniciativas locais. A manutenção de preços reduzidos e a aposta em acessibilidade técnica contribuem para ampliar o perfil de público e para uma participação mais diversa — incluindo pessoas idosas, famílias e participantes com necessidades específicas.
Do ponto de vista económico e social, a descentralização poderá igualmente dinamizar pequenas economias de proximidade, favorecendo cafés, restaurantes e microcomércios nas localidades que acolherem sessões. Para a comunidade artística, a secção ‘off’ representa uma janela de visibilidade e profissionalização para criadores emergentes, possibilitando contactos com produtores, programadores e público.
O festival É‑Aqui‑in‑Ócio volta assim a afirmar‑se na Póvoa de Varzim não apenas como montra artística, mas como dispositivo de inclusão cultural. Nas palavras da direcção artística, a democracia da arte passa por garantir que «todas as pessoas que tenham vontade possam entrar numa sala de espetáculos», propondo um modelo que conjuga qualidade, proximidade e acessibilidade.