Fé e tradição: a comunidade piscatória no centro da festa
Na noite que culminou com a saída dos andores, a Póvoa de Varzim voltou a vestir-se de festa para a Senhora da Assunção, padroeira dos pescadores. Uma celebração com mais de dois séculos que, todos os anos, congrega milhares de pessoas — muitas delas ligadas por laços familiares ao mar — e reafirma a identidade local.
Ao lado da Igreja da Lapa, o cortejo foi sendo composto por largas centenas de fiéis e figurantes. Entre os protagonistas, destaca-se a classe piscatória: dos 180 figurantes, a maior parte descende de famílias com tradições náuticas ou tem meios de subsistência relacionados com o mar. Os andores, em grande maioria, foram carregados por pescadores, mantendo uma prática enraizada no gosto e na responsabilidade comunitária.
Preparação e simbolismo: o tapete de flores e o tema da paz
A confeção do tradicional tapete de flores na Rua 31 de Janeiro, que há mais de duas décadas integra as solenidades, constituiu outro dos pontos altos preparatórios. O trabalho começou semanas antes: escolher flores, delinear os desenhos e trabalhar serrim e sal.
«Começamos às 22 horas e acabamos às 6.30. Este ano, o tema é a Paz. Colocamos o mundo nas mãos de Cristo e de Nossa Senhora e pedimos-lhes que deem paz ao mundo», explicou uma das responsáveis pelo tapete, sublinhando o sentido coletivo e devoto do trabalho que atrai público desde manhã cedo.
«Tenho 56 anos e sempre fui na procissão, desde pequenina! A nossa classe piscatória tem muita fé na Senhora da Assunção. É a padroeira dos pescadores»
O testemunho de Mónica Caseira ilustra a persistência da tradição: embora já não carregue andores — «isso é papel para os mais jovens» — continua ligada à procissão, participando na angariação de esmolas e na organização de detalhes da festa. A sua família, com o barco «João Manazé», manteve laços com a confraria: um tio foi juiz da Confraria da Senhora da Lapa e hoje são os primos que assumem o encargo de carregar o andor.
Dimensão social e turística
Além do componente religioso, a festa tem um efeito visível na vida da cidade: atrai visitantes de concelhos vizinhos e gera movimento na marginal e no comércio local. Quem assiste destaca a beleza do rito quando os andores se voltam para o mar, gesto que sintetiza a relação simbiótica entre a cidade e a atividade marítima.
Conceição Santos, visitante vinda de Famalicão, afirmou que «vem sempre muita gente neste dia. As pessoas aqui têm muita fé. É uma procissão muito bonita», reforçando o caráter de público amplo e intergeracional do evento.
Dados e participação
Os números e horários oficiais comunicados no local sintetizam a dimensão do evento:
- Figurantes: cerca de 180;
- Horário da preparação do tapete: trabalhos que se estendem por mais de um mês;
- Duração da noite de construção do tapete: das 22:00 às 06:30 na madrugada do dia da procissão.
| Item | Valor |
|---|---|
| Figurantes | ~180 |
| Período do tapete de flores | Há mais de duas décadas |
| Horário (amanhã da procissão) | 22:00–06:30 |
A procissão da Senhora da Assunção reafirmou, assim, a vitalidade da tradição poveira: uma festa que combina devoção, trabalho colectivo e memória marítima, enquanto movimenta um público que se estende para além das fronteiras do concelho. Para a comunidade piscatória, este é um momento de afirmação identitária — um ritual público onde o mar continua a ser presença central e lembrada em cada gesto.