O Governo Regional da Madeira confirmou que está em negociação, há meses, para assegurar a propriedade onde viveu a artista plástica Lourdes de Castro, situada no concelho de Santa Cruz, e admitiu a compra caso se revele viável. A quinta, anunciada no mercado imobiliário por 4,1 milhões de euros, tem despertado debate público sobre a melhor forma de garantir a proteção do espaço que foi parte integrante do processo criativo da artista.
Negociação discreta e cautelosa
À margem da inauguração do novo edifício do 1.º ciclo do Colégio Salesiano do Funchal, o presidente do Governo Regional, Miguel Albuquerque, afirmou que as conversas decorrem «fora do ruído, dos anúncios e das parangonas», com «ponderação e bom senso».
«Estamos a tratar disto já há bastante tempo, fora do ruído, dos anúncios e das parangonas […], com ponderação e bom senso. Se for viável essa aquisição, o Governo vai adquirir»
Albuquerque disse ainda que o executivo tem dialogado «de forma razoável» com a família da artista e que as negociações prosseguem «com calma e moderação», apesar da surpresa gerada pelo anúncio de venda do imóvel e do aparecimento de chamados «defensores de última hora».
Caracterização do imóvel
A propriedade, anunciada pela imobiliária Sotheby’s Realty, é descrita como uma quinta com vista para o mar e para as ilhas Desertas, projetada por Lourdes de Castro em conjunto com o arquiteto Manuel Zimbro. Segundo o anúncio, o lote corresponde a uma área bruta de 12 330 metros quadrados e a habitação inclui cinco quartos e três casas de banho.
| Característica | Valor/Descrição |
|---|---|
| Preço pedido | 4,1 milhões de euros |
| Área bruta | 12 330 m² |
| Nº quartos | 5 |
| Nº casas de banho | 3 |
| Imobiliária | Sotheby’s Realty |
Património e uso futuro
No anúncio, a imobiliária sublinha que a casa e o jardim eram, para a artista, «inseparáveis», formando «uma extensão do seu processo criativo». A ficha de venda aponta para a necessidade de preservar o imóvel «como um museu» e manter o jardim «como uma homenagem à sua arte», defendendo que o conjunto reflete «a ligação à natureza» e a «simples sabedoria» que marcaram a trajetória de Lourdes de Castro.
Além da dimensão patrimonial, a plataforma de venda realça possibilidades de utilização do terreno para fins turísticos ou para construção de moradias unifamiliares, o que abre um leque de opções e de escolhas políticas sobre o futuro do local caso a aquisição não se concretize.
Reacção pública e contexto
A notícia do anúncio comercial da quinta surpreendeu o executivo regional, que entretanto confirmou a continuidade das negociações. O tema já tinha passado pelos órgãos de decisão política: em junho do ano passado, o parlamento da Madeira rejeitou um projecto de resolução do PS relacionado com a matéria, segundo a informação disponível.
- Valor e dimensão da propriedade colocam questões sobre financiamento e modelo de gestão.
- O apelo da imobiliária para que o espaço seja preservado como museu coloca o tema no campo do património cultural.
- Qualquer decisão terá impacto no concelho de Santa Cruz e na oferta cultural e turística da região.
Para muitos na ilha, a preservação de espaços que inspiraram artistas locais é uma prioridade que cruza memória individual e identidade colectiva. A casa de Lourdes de Castro tem potencial para se tornar um ponto de referência cultural, mas isso exige uma decisão clara sobre propriedade, financiamento e destino.
O Governo Regional não divulgou detalhes sobre o montante disponível para a compra nem o calendário das negociações. A confirmação pública de Miguel Albuquerque aponta, porém, para a intenção de avaliar a viabilidade da aquisição antes de qualquer compromisso formal.
Enquanto a negociação decorre, a questão fundamental permanece: como conciliar o desejo de proteger o legado de uma criadora com as pressões do mercado imobiliário e os interesses de desenvolvimento local? A resposta determinará se a quinta em Santa Cruz seguirá o caminho da preservação pública ou da exploração privada.
Ricardo Freitas Câmara, correspondente na Madeira.