No Parque da Cidade de Barcelos, a noite da Gala do Artesanato assinalou o fecho da 43.ª Mostra Internacional de Artesanato e Cerâmica e serviu para distinguir trajetórias profissionais que moldam a identidade artística e económica do concelho. A cerimónia salientou, uma vez mais, o peso do artesanato — e, em particular, do Figurado — na afirmação da cidade além-fronteiras.
Prémios e reconhecimento às tradições
O prémio máximo da noite, o Prémio Carreira, foi atribuído a Bernardino Coelho, na área da madeira, em reconhecimento de um percurso marcado pela dedicação à arte popular e pela capacidade de reinvenção da produção artesanal face aos desafios contemporâneos. A distinção pretende sublinhar não apenas a qualidade estética das peças, mas também a resiliência e adaptação dos mestres artesãos às exigências do mercado e às dinâmicas culturais atuais.
Além do Prémio Carreira, a Gala distinguiu várias categorias, evidenciando tanto a tradição como a inovação do universo artesanal barcelense:
- Revelação — Artesanato Contemporâneo: Diana Correia (joalharia)
- Revelação — Artesanato Tradicional: Eduardo Barbosa (Figurado de Barcelos)
- Prémio Inovação: concurso com tema “50 anos da Banda Plástica de Barcelos”, envolvendo mais de 34 peças
| Prémio | Vencedor / Observações |
|---|---|
| Prémio Carreira | Bernardino Coelho (madeira) |
| Revelação — Artesanato Contemporâneo | Diana Correia (joalharia) |
| Revelação — Artesanato Tradicional | Eduardo Barbosa (Figurado de Barcelos) |
| Prémio Inovação | Concurso com 34+ peças; primeiro lugar para participante identificado como Boaventura M (parcialmente referido) |
Ambição institucional: Figurado de Barcelos rumo à UNESCO?
Durante a gala, o presidente da Câmara Municipal de Barcelos, Mário Constantino Lopes, voltou a enunciar a meta política e cultural de elevar o Figurado de Barcelos ao estatuto de Património Mundial da UNESCO. O autarca foi enfático quanto à necessidade de transformar essa ambição em objetivo concreto.
«Temos um sonho, uma ambição: que este património seja património mundial», declarou, acrescentando que «mais do que um sonho, terá de ser um objetivo».
Na sua intervenção, o presidente associou a ambição à figura de Rosa Ramalho, referência incontornável do Figurado, destacando-a como símbolo «da arte popular, da criatividade, da genuinidade e, sobretudo, do talento» que distingue o artesanato barcelense. Nesta leitura municipal, o património imaterial — as técnicas, os saberes e os nomes — constitui um ativo cultural e económico cuja salvaguarda pode potenciar visibilidade e turismo cultural.
O discurso do executivo municipal sublinhou ainda uma ideia que atravessou toda a Gala: «o artesanato está vivo e bem vivo». O presidente reforçou que, na identidade do concelho, mais importante do que a paisagem ou a arquitectura é o capital humano — os artesãos e as suas famílias —, agentes que colocam Barcelos como referência nacional e crescente ponto de atração internacional no universo da arte popular.
Consequências locais e perspetivas
Para a economia local, a mostra e a gala são eventos de visibilidade que ajudam a sustentar circuitos de venda direta, encomendas e cooperações com galerias e lojas especializadas. A distinção de novos talentos, como as categorias de revelação, funciona também como estímulo para a renovação geracional de ofícios artesanais, uma condição essencial para a manutenção de técnicas tradicionais face à concorrência de produtos industrializados.
O desafio lançado pela Câmara — a eventual candidatura do Figurado a Património Mundial — implica, porém, trabalho continuado: documentação, mobilização da comunidade, estratégias de comunicação e mecanismos de proteção e transmissão dos saberes. São etapas que exigem coordenação entre município, artesãos, investigadores e entidades culturais, e que poderão transformar o reconhecimento simbólico em instrumentos concretos de sustentabilidade económica e cultural para Barcelos.
Ao encerrar a 43.ª Mostra Internacional de Artesanato e Cerâmica, a Gala deixou, assim, um duplo sinal: a celebração de trajetórias individuais e a reafirmação de um projeto coletivo, onde o património imaterial do Figurado surge como eixo de identidade e ambição para a cidade.