Investigação centra-se em burlas a idosos e em dias de feira
Dois homens, Fernando Cerqueira, 73 anos, e Armando Cohen, 74 anos, estão a ser julgados no Tribunal de Guimarães por uma alegada vaga de burlas que teve como principais alvos pessoas idosas e com fraca instrução, maioritariamente no concelho de Fafe.
Segundo a acusação do Ministério Público (MP) de Braga, os arguidos são suspeitos de 15 crimes de burla qualificada, em operações que também terão ocorrido em Cabeceiras de Basto, Póvoa de Lanhoso e Vila Verde, e que culminaram, alegadamente, no furto de aproximadamente 78.000 euros às vítimas identificadas.
Modus operandi: o clássico «conto do vigário»
A peça instrutória descreve um padrão repetido nas abordagens. A atuação dava-se em locais de grande afluência, como feiras e dias de festa, e seguia um guião planeado: uma das pessoas aproximava-se do alvo com uma narrativa sobre uma suposta herança deixada por um falecido que deveria ser entregue a um médico ou à Santa Casa da Misericórdia. Para substanciar o conto, exibiam envelopes ou sacos que simulavam conter numerário — por vezes apenas com folhas de papel ou algumas notas de €50 — e persuadiam a vítima a doar dinheiro temporariamente ou assinar documentos que legitimavam a partilha da quantia.
- As vítimas eram escolhidas por estarem em locais públicos e, frequentemente, por terem idade avançada;
- Os burlões atuavam em conjunto, mas de forma a parecer casual e credível;
- Para comprovar idoneidade, pediam que a vítima mostrasse o dinheiro que tinha e, depois, o entregasse.
«A dinâmica consistia em um deles abordar o ofendido, perguntando-lhe se conhecia um médico, e logo surgia o outro, sugerindo a divisão da quantia», refere a acusação.
Processo: detenção preventiva e uma queixa arquivada
Os dois acusados, que se encontram em prisão preventiva, foram alvo de investigação que envolveu vários factos ocorridos em diferentes concelhos do distrito de Braga. Apesar da dimensão do processo principal, o MP de Braga arquivou um caso específico de burla de 4.200 euros que reportava um crime em Cabeceiras de Basto — uma decisão que faz parte das peças do inquérito e que distinguiu este episódio dos demais que chegaram a julgamento.
| Acusado | Idade | Residência | Estado |
|---|---|---|---|
| Fernando Cerqueira | 73 | Oeiras | Prisão preventiva |
| Armando Cohen | 74 | Estoril (Cascais) | Prisão preventiva |
O processo, instruído em Braga, foi remetido para julgamento no Tribunal de Guimarães. A acusação aponta 15 crimes de burla qualificada, a maioria deles praticados em Fafe, e realça a escolha deliberada das vítimas por apresentarem vulnerabilidade associada à idade e circunstâncias (feiras, festas locais).
Repercussões locais e preocupações
Para a comunidade fafense, a divulgação dos moldes da acusação reforça uma sensação de alerta sobre esquemas que visam especificamente os mais velhos. Autoridades locais e organizações que trabalham com idosos costumam sublinhar a importância de informação preventiva junto das populações mais vulneráveis para reduzir a exposição a esquemas deste tipo. O arquivamento do caso de 4.200 euros em Cabeceiras de Basto demonstra, por outro lado, que cada ocorrência é avaliada com base em elementos probatórios específicos.
À medida que o julgamento decorre no Tribunal de Guimarães, a leitura dos autos — com descrições pormenorizadas do método de ação dos arguidos — promete esclarecer o âmbito exacto das perdas e a cadeia de responsabilidades. Para já, a comunidade de Fafe permanece atenta e à espera de desfecho judicial que possa trazer respostas às famílias lesadas.